Mediocridade é contagiosa

picture (95)Às vezes, desacoroçôo. Não de Piracicaba, mas de tolice vicejante. Cansaços abatem, especialmente o de enfrentar gente tola. Pois a tolice contagia, contamina, impregna, cria estilo, atropela. E, pior que tudo, tolice não respeita limites, avulta, cresce. E penetra em todos os espaços, entra por vãos, insinua-se por frestas. Tolice independe de profissão, de sexo, de nível econômico, de posição social. Insinua-se em universidades, em escolas, em órgãos de comunicação, no empresariado, na política, na religião, em igrejas, dentro de nossa casa. Um doutor, com mil diplomas, pode ser tolo. E o analfabeto, um sábio.

A tolice é como a burrice: mediocriza. Pois tolos temem qualquer forma de inteligência. Tolos impedem, em qualquer profissão, que o subalterno cresça, brilhe, revele talentos. Tolos matam talentos, matadores de história, queimadores de livros, inimigos da liberdade, criadores de moralismos e de religiosidades aprisionantes. Podem ter todos os livros, todas as riquezas, todo o poder – mas permanecem tolos, pois não sabem o que fazer deles.

Quando Prudente de Moraes tornou-se Presidente da República, os medrosos da inteligência, do brilhantismo e da decência criticavam-no, como se o ofendessem: “É um biriba, caipira de Piracicaba.” Campos Salles foi “caipira de Campinas”. E Rodrigues Alves, “caipira de Guaratinguetá”. E , muitos anos depois, Juscelino Kubitschek foi “caipira mineiro”. A tolice impede ver que o Brasil republicano resulta de uma cultura “caipira”, essa riqueza genuína de índio, negro, português, enriquecida por mil outras raças.

Somos um grande caldeirão de imigrantes, soma de culturas, de histórias, de tradições. Tenho, como tesouro que preservo, um espelho, com mais de 150 anos, trazido por meu avô de Paris. Outros têm bíblias, móveis, livros, fotos, bilhetes, pedacinhos de pano como relíquias de sua cultura ancestral, impregnando-nos a vida, abrindo-nos visões de mundo universais. Na pintura, na música, na literatura, na cultura, há, na Piracicaba caipira, a história de suiços, franceses, árabes, espanhóis, alemães, judeus, italianos, japoneses, tantos outros. E, no entanto, é Piracicaba a paixão que nos marca a alma, como se tivéssemos enterrado a rica ancestralidade com o nosso umbigo à beira do rio. Em que lugar do mundo, pode, um árabe, ser cantador de cururu? Em Piracicaba, pôde. Pode. Manoel Chaddad – patriarca dos Chaddad, meu padrinho de batismo – foi curueiro dos bons.

Esta é terra abençoada, tesouro preservado. “Nativos” ou “pardais”, os que aqui nascem e os que este lugar escolheram para viver, falamos da mesma paixão que nos irmana. Mas é preciso ter medo da mediocridade. Seria desesperador imaginar Piracicaba soterrada pela burrice. Pois ouço ecos de uma faixa medíocre de pessoas lamentando-se por Piracicaba viver esse orgulho de suas origens. Para eles, o nosso caipirismo é um “estigma que precisa ser enfrentado”. Devem ser aqueles que, querendo ser cosmopolitas, falam “galfo”, em vez de garfo. Ou os que mastigam e engolem pérolas acreditando sejam capim.

Essa mediocridade assustadora não quer entender que a terra caipira – da Esalq, de Leo Vaz, dos Dutra, de Thales, de Sud – é uma “griffe”, marca, valor econômico. Essa terra caipira tem ciência e cultura e arte responsáveis por uma economia pujante que renasce, que ressurge. Mas é preciso cuidado: mediocridade pega. Bom dia.

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