Medo sem saber do quê

picture (1)Ouvi, há poucos dias, um jovem defender a racionalidade absoluta, a morte das emoções, o pragmatismo e o utilitarismo levados ao extremo. Ele se negava a aceitar sentimentos, especialmente a generosidade. Em meio ao almoço, disse-me não ter medo de nada. Engoli meu bocado de cuscuz, olhei as garças no rio, vi o céu limpo de nuvens, exalei o suspiro dos homens cansados: “E eu tenho medo de quase tudo…”

O jovem jornalista me olhou como se eu zombasse dele. Um aprendiz de guerrilheiro, acho, teria o mesmo olhar se Che Guevara lhe dissesse ter ou estar com medo. Eu estava na lista de seus heróis. Enumerei-lhe alguns dos meus medos: de altura, de netinho adoecer, de filho estar com problemas; medo de ser assaltado numa esquina, medo de políticos, medo da ciência enlouquecida, medo de ser enganado até pelo vendedor de cachorro quente; medo de traficantes e de estupradores. O jovem não acreditou.

Num mundo e num tempo sem culpas, o medo fica escondido, submerso. E onde não houver medo e culpa, não haverá sistema de valores. Sem o medo, o mundo perde alicerces morais, pois desaparece também o respeito. Até os bichos das florestas têm medo. O coelhinho eriça os pelos se pressente a onça próxima. A ovelha treme se fareja o leão. Se a lei é do mais forte, os mais fracos amedrontam-se, isso faz parte de qualquer teoria de poder. Ora, se eu não tiver o controle da coisa, de situações, como não ter medo? Quem não o tem diante de vulcões explodindo, da desordem dos furacões devastadores? O humano tem medo das forças descontroladas, do caos, da desordem, produzidos pela natureza e, pior ainda, pelos homens.

Minha geração inventou o “paz e amor, bicho”, o “faça o amor, não faça a guerra”, o “é proibido proibir”. Havia, sim, muito o que romper, enfrentar, superar. De alguma forma, porém, abalamos estruturas que não poderiam ser afetadas e, em busca de novos valores, golpeamos de morte alguns princípios. O da autoridade foi um deles, causa e tragédia do nosso suicídio coletivo. Sem medo de repreensão, de punição, de pena e de castigo, não há respeito. Se tanto faz o vício quanto a virtude, a honradez quanto a indignidade, qual a vantagem da decência? Nenhuma sociedade resiste à ausência de autoridade.

Ora, não existe céu sem inferno. Nem deuses sem demônios. Minha geração cresceu à luz também de Myra e Lopes, com seus “Quatro gigantes da alma”, o medo, o amor, a ira, o dever. Desses gigantes, apenas a ira parece ter sobrevivido com clareza. Amor, medo e dever desfiguraram-se. E, no entanto, o medo – diante de tanta falsa coragem propalada e difundida – existe na pior de suas formas: o medo difuso, o medo total, o medo permanente, aquele medo terrível que impede o florescimento de esperanças e o desejo de transformações. É o “medo não sei de quê”. O pior deles.

Se o desconhecido amedronta, o já conhecido desperta horror. Quem caiu em precipício tem medo de cair novamente. E é esse o meu medo diante da aproximação do velho precipício, o de sempre, de um país que não aprende com lições da história e que, com o destemor dos irresponsáveis, pensa ser capaz de resistir a todos os desaforos, acintes, achincalhações.

Ouço gente já falando em fechamento de Congresso, de Câmaras Municipais. O precipício está aí. A história não pode repetir-se. Mas – diante de tanta lama, corrupção e achincalhe – como responder à pergunta que atormenta o povo: é pior com esses políticos ou é pior sem eles?

Fico com mais medo ainda. Bom dia.

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