Meninos de rua e de apartamentos

picture (34)Neuroses individuais espalham-se e se tornam coletivas. E, então, as sociedades podem abalar-se até em seus principais fundamentos. Quem imaginaria pessoas adultas, marmanjos, com medo de crianças? Pois aconteceu. Estamos com medo de crianças, essas que passamos a chamar de “meninos de ruas”. Enlouquecemos.

Não me cansarei de insistir: minha geração foi de meninos de ruas, nas ruas. Pois elas, as ruas, eram dos meninos, onde brincávamos, por onde passávamos, criando amizades, conhecendo pessoas, descobrindo o mundo. Fazíamos traquinagens: apertar campainha de casas e sair correndo; furtar leite e pão que, antes, eram deixados às portas das famílias; pular no quintal do vizinho para apanhar manga ou jabuticaba no pé. Éramos meninos de rua, sim, pois a casa era lugar para onde voltávamos, o lar, o porto seguro, a segurança, não prisões como as que passamos a construir. Agora, os antigos meninos de rua se tornaram meninos de apartamentos ou de condomínios, prisioneiros, enquanto pobres crianças desamparadas ou sem destino se tornaram os novos meninos de rua, dos quais escandalosamente passamos a ter medo.

Confesso que já senti vergonha de mim mesmo algumas vezes quando diante dos tais “meninos de rua”. Aconteceu-me, há poucos dias, novamente. Passando, de automóvel, por uma avenida pouco movimentada, detive-me diante do semáforo. Quase a meu lado, num caminho sem calçada e tomado por mato, algumas crianças andavam em grupo: meninos e meninas, mochilas nas costas, pobrezinhos, negros e pardos. Os fantasmas, naqueles poucos instantes, surgiram na revelação de eu ser vítima, também, dessa neurose coletiva, dessa loucura suicida de nossos tempos: ter medo de crianças. Pois foi o que senti, alimentando fantasmas: eles irão cercar o carro, irão me agredir, vão tentar alguma violência. Antes de o sinal se abrir, eu já fechara o vidro do carro, engatara o câmbio para qualquer emergência, o pé pronto para apertar o acelerador. As crianças passaram a meu lado rindo e conversando, nem sequer me viram.

Devemos parar de fingir e admitir que criamos estereótipos significantes de preconceitos que se vão enraigando: “meninos de rua” são sempre pobrezinhos, pardos ou negros, cheirando cola, mascando qualquer droga, prontos para nos atacar. Os garotos gordos, robustos, rosados, os tais branquinhos de olhos azuis a cujos pais Lula se referiu, esses estão, apenas, como figurantes em novelas da Globo ou em anúncios da Nestlé. E são meninos de apartamentos, de casas de condomínios. Meninos aprisionados em nossos castelos fortificados.

Ter medo de sair às ruas é a prova mais concreta e terrível da sociedade enferma que construímos. As ruas têm que voltar a ser dos meninos, de todos os meninos. As ruas são do povo, de todo o povo. O medo é contagioso, pega. Pegou. Se nossos governantes continuarem dando mais importância a rotatórias e a pontes, pensando em automóveis e motoristas, esquecendo-se dos valores fundamentais que são a saúde, a educação, o transporte coletivo, a segurança – esse medo coletivo será responsável pela destruição também coletiva. Que já começou. Como falar que o Brasil e a cidade precisam de mais educação e escolas, se a grande maioria de nossos governantes não têm formação espiritual para entender isso? Bom dia.

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