Mensalão e Doutor Jacob

Confesso não saber como definir a importância do dr. Jacob Diehl Netto – ou, apenas, Doutor Jacob – na história piracicabana do século passado. Foi um dos intelectuais mais lúcidos e completos, jurista de renome, advogado imbatível na arena forense, jornalista de estilo inconfundível e inimitável. Foi, à sua época, um paladino das causas piracicabanas. Sozinho, enfrentava, com a pena e a cultura, os mais gananciosos aventureiros. Piracicaba foi sua razão de viver. E, como ninguém naqueles tempos, ele lutou por esta terra.

Acompanhei-o desde a adolescência e fiz, dele, meu ídolo jornalístico, um dos referenciais culturais de minha vida. Sábio, poliglota, o Doutor Jacob era de uma humilde franciscana mas, ao mesmo tempo, tinha, quando necessário, a fúria de um leão ferido. A casa que construiu, à frente dos trilhos iniciais da Estação Paulista – na Avenida Dr.Paulo Pinto – é, ainda hoje, símbolo de seu refinamento cultural. Privei de sua amizade até o fim da sua vida, quando eu já era homem feito, com uma penca de filhos. Num sábado de manhã, ele passou pela redação de O Diário – como o fazia diariamente – sentou-se para conversar, despediu-se para ir almoçar com os netos e, instantes depois, chegava-nos a notícia aterradora: o Doutor Jacob, atropelado por um automóvel, acabara de falecer. Fui o último a estar com ele.

Penso nele, nesses dias complicados, quando bato os olhos nos debates do mensalão no Supremo Tribunal. Arrepio-me e embascabo com juízes que, na declaração de voto, lêem mil páginas, e outro cujo voto terá l.300 páginas. Fosse o doutor Jacob, o voto – completo, acabado, impecável – seria formulado em algumas poucas páginas. Sou testemunha de seu fantástico poder de síntese. Pois, formado em Direito, decidi advogar. E assim foi. O doutor Jacob passava por meu pequenino escritório também todos os dias, uma rotina: do Diário ao escritório, vice-versa. E me ensinava, me orientava.

Na minha primeira causa – que me emocionou – debrucei-me sobre os livros, pesquisei, estudei, fui redigindo a petição inicial. Quando concluí – feliz da vida e orgulhoso de mim mesmo – esperei o Doutor Jacob chegar e lhe pedi uma avaliação do meu trabalho, um calhamaço de cerca de 40 páginas. Paciente, ele leu com calma, folha por folha. Ao final, ele me cumprimentou: “Muito bom o seu trabalho, mas…” Fiquei aguardando: “Ele pode servir para as razões finais. Eu, se fosse você, faria assim…” E fez. Pegou uma folha em branco, uma caneta e resumiu tudo o que eu fiz em apenas cinco linhas. Nas cinco linhas, ele falou tudo o que escrevi em abundância.

Ora, o tal mensalão – que não sei mais qual é – virou um espetáculo insuportável de monotonia. Um relatório de mil páginas, um outro que ameaça vir com 1.300 páginas – isso revela o espírito burocrático de um país que teima em ter seu cotidiano e as instituições tão morosas quanto as ordenações manuelinas e filipinas dos nossos avós portugueses. Estivesse no Supremo, o doutor Jacob resumiria tudo em umas 20 páginas. No máximo. E exporia seu voto com sabedoria e conhecimento insuperáveis.

Pena que não mais se fazem Doutores Jacobs como antigamente. E feliz de mim que conheci tão de perto um dos gênios da raça. Bom dia.

1 comentário

  1. Wladir Santos em 18/08/2012 às 16:17

    Verdade isso, Grande Cecílio. Conheci o Dr Jabob também e, juntamente com mais alguns piracicabanos (dentre os quais eu sempre inclui a Vosmecê) creio que se existissem pessoas assim no STF, as coisas não correriam nem morosas como são e muito menos ameaçadoras à aura de Justiça que suas decisões devem refletir. Aceite meu abraço.

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