Milagre de catadores de papel

picture (11)Os céus chovem-me bênçãos. Por isso, nos últimos anos, tenho dito que, por gratidão, eu deveria andar de joelhos. Na verdade, bastaria, a qualquer um de nós, apenas refletir sobre os bens e alegrias para, então, superar dores e render graças. Recebemo-las todos os dias. Em todos os instantes. Ver um arabesco de passarinho no ar é graça. Sentir o perfume de dália nascendo, outra. Cada som e cada cor da natureza.

Há poucos dias, realizou-se-me o que poderia haver de mais sonhador na minha já quase finda carreira de escritor: crianças campineiras, de 10 a 12 anos, estudavam textos meus, discutiam-nos, queriam interpelar o escritor. E me deram, como prêmio, uma caixa de doces feitos com suas próprias mãozinhas. Era o prêmio máximo de um escritor, ser lido, discutido, interpretado por criancinhas.

E, naquela mesma cidade, um homem de quase 90 anos – nestes tempos de tecnologia sofisticada – me enviava um e-mail que me alcançou feito outra bênção: “Nos meus quase oitenta e nove anos – talvez por tê-los vivido e sofrido nas lembranças amarradas na saudade – não me ocorre ter lido uma página de maior afeto e humanidade que essa sua inesquecível crônica de hoje, A Música que Falta. ” Senti-me, como escritor, agraciado pelos dois extremos da vida, a infância e a velhice. Quê honrarias mais?

Pensei não mais pudesse tê-las, merecedor de mais nada. E, no entanto, os céus continuam chovendo-me graças. E a mais generosa de todas, não tenho dúvida, é essa dos catadores de papel, do núcleo da Cooperativa Reciclador Solidário e das oficinas “Recicl´arte”, do Sesc. Com a orientação da artista plástica Catarina Landim, homens e mulheres do povo conseguem transformar lixo em arte. Do papel jogado, fazem livro. E, nessas páginas recuperadas e recicladas e transformadas, me honram editando dois poemas meus, na linguagem para mim deliciosa e comovedora do caipiracicabanismo.

Ora, aprendi a entender o eterno retorno humano como algo que acontece apesar de nós, independentemente da vontade de cada um, como um milagre de vida e de renascimento. Se até a ciência entendeu que, na vida, “nada se cria, tudo se transforma”, apenas a tolice humana admitirá soberbas, fixismos, intransigências, preconceitos. Tudo é o vir-a-ser, um devir, um continuar, um prosseguir, um transformar-se. Vieira já previra que o mar virará sertão e o sertão, mar. E catadores de papel, catadores do lixo humano, do resto da abundância nos dão uma lição empolgante de renascença ao nos provar que, do lixo, produzem arte e cultura e vida.

Nunca imaginei que poemas saídos de minha alma pudessem renascer, tão alvissareiramente, do lixo de nossas ruas. Catadores de papel produziram o milagre de ver o belo na feiúra. E eu me sinto em estado de graça ao receber esse prêmio máximo de literatura, vindo das sarjetas de minha terra e das mãos humildes e generosas de minha gente. Deo gratias. E bom dia. (Ilustração: Araken Martins.)

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