Minha máquina e meu cavalinho

Esse texto foi publicado em outubro de 1988 no semanário impresso A Província. Recuperamos para lembrar os 30 anos de atuação em Piracicaba.

 

Os moços são cruéis em seu desrespeito. Na maioria das vezes eles nem percebem que estão machucando, desafiando, desrespeitando o mundo dos mais velhos, os antigos. Querem ajudar, atrapalham.

Se os moços fossem mais sábios, conseguiriam tudo dos mais idosos, desde que fossem com calma, devagarinho. Digo-o por mim, pelo menos. Estou, ainda hoje, tentando aprender e compreender coisas que comecei a descobrir há 20, 30 anos, e já me empurram a aprender coisas que ainda não estão nem explicadas.

Vamos com calma, que o andor é de barro. Ora, montei um cavalinho de pau na infância. Em bicicleta, na adolescência e na juventude. É normal e natural, penso eu, que esteja ainda tentando compreender o automóvel. Seria absurdo tornar-me um corredor de Fórmula 1. Jamais eu haveria de competir com o Ayrton Senna na Fórmula 1.

Mas eu gostaria de ver se ele seria capaz de competir comigo num cavalinho de pau, aquele que era feito com cabo de vassoura e um pedaço de madeira na ponta. Eu tive um cavalo de pau inesquecível, o melhor e o mais veloz do quarteirão.

O nome dele era Silver, o mesmo nome do cavalo do Roy Rogers. Pois bem. Os moços resolveram comprar um microcomputador. Chegaram e me avisaram taxativamente: “Está aqui.  A partir de agora, você não precisa mais escrever nessa máquina horrorosa, superada, monstro medieval. Agora, você tem um editor de texto”. Eles estavam exultantes, felizes, decididos, impositivos, cruéis em sua decisão automatizadora, ditatorial, na maneira corno invadiram e desrespeitaram o meu mundo, a minha privacidade.

Ora, eu sei perfeitamente que o momento é da automação, da informática, respeito-o, admiro-o, sei de sua grande importância para os novos tempos, pois não sou tolo. Só que há uma coisa fundamental que foi esquecida: ninguém me consultou para realizar todo esse delírio automatizado.

Logo, se não fui consultado, não sou obrigado a aderir. Um dia, esse mundo irá explodir com um simples toque de botão, a mais perfeita conquista tecnológica: aperta-se um botão e, bum!, explode tudo, numa guerra nuclear que acabará em poucas horas.

Em matéria de guerra, porém, eu gosto mesmo é daquelas de capa e espada: um espadachim contra outro espadachim, um duelo entre cavalheiros. Nações com uma ética até mesmo para guerrear. Tudo bem: um micro, a possibilidade de outra organização, de outra maneira de realizar, tudo bem. Mas e a minha máquina de escrever, a minha velha, amada, a minha Olivetti que me acompanha há 34 anos?

O que eles, os moços, pensam que é a minha máquina de escrever, mais idosa do que eles, mais companheira por todo o tempo em que está comigo? Será que eles, os moços, são tão cruéis, tão frios, tão insensíveis que estão acreditando que eu, por causa de um microcomputador, irei abandonar, deixar, substituir a minha velha, sofrida, cansada, ultrapassada, superada, doente máquina de escrever?

Eu tinha 14 anos quando a ganhei. E ela, a minha Olivetti, presente de meu pai, acompanhou-me ao longo de toda a vida: da adolescência à maturidade. Foi ela o instrumento que me colocou frente ao mundo e à vida. Foi ela, e é ainda hoje, a minha confidente, o meu confessor, a que mais conhece de minha intimidade, de alegrias e de dores, de esperanças e de frustrações, de derrotas e de vitórias.

É ela, minha máquina de escrever, a companheira que mais sabe de toda a minha humanidade, de minha condição humana. Não houve nada mais íntimo meu do que minha máquina de escrever: nem meus pais, minha mulher, meus filhos, meus amigos, meus amores.

Trocá-la por um microcomputador, apenas porque o micro é mais jovem, mais ágil, mais atual? Não. Há uma profunda relação de paixão entre ela e eu, a máquina de escrever e o homem que nela escreve, intimidade total. Só Deus pode nos separar. Bom dia.

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