Minhocas municipais

Minhocas MunicipaisNunca me importei com minhocas. Nem para pescarias, pois pescador nunca fui, sem capacidade de compreender a paciência, a paixão dos que ficam aguardando a fisgada de um peixe no anzol com minhocas. Para mim, elas eram tipo lesmas, repulsivas, bichinhos desimportantes.

A primeira lição que tive sobre a importância das minhocas foi numa das minhas saudosas noites na casa do inesquecível Eurípedes Malavolta, a sala sempre à meia-luz, os discos e CDs apaixonantes que ele trazia de suas viagens ao exterior, a conversa amena, inteligente, o Malavolta poeta e sensível que apenas amigos privilegiados conheceram. Tenho saudade dele, muita. A opinião literária de Malavolta me faz falta ainda hoje, pois era ele um dos poucos amigos que liam originais de romances que eu escrevia. Suas sugestões eram pertinentes, sábias e me ajudaram muito.

A casa do Malavolta tinha um belíssimo jardim que eu diria quase selvagem. Muitas árvores, muita sombra. E, no entanto, havia forração que parecia enfrentar a falta de sol. Ele me explicou do que se tratava, pois eu, no meu jardim, passava pelo mesmo problema, um amador que não sabia que grama plantar sob flamboyants e ipês. Foi quando ele me falou de minhocas. E falou com paixão, mostrando-me a importância delas para a humanidade. Em seu vasto conhecimento científico e com sua erudição extraordinária, Malavolta dissertava sobre minhocas indo buscar elementos a partir de Darwin, insistindo para que eu absorvesse a crucial importância delas para o solo, para a generosidade da própria terra.

Fiquei intrigado. Comecei a ler alguma coisa. Um outro amigo agrônomo, Ângelo Martinez, me deu seu livro, “A grande e poderosa minhoca”, que ele escreveu como um manual prático do minhocultor. Fiquei envergonhado de minha ignorância. E as minhocas começaram a ser alvo de minha atenção até que, depois de algum tempo, ganhei uma “Casa de Minhocas”. Eram três caixas, práticas, que podem ser usadas até em apartamentos. Numa delas, a segunda, ficavam as minhocas que passaram a ser alimentadas com resíduos de cozinha, cascas de frutas e legumes, folhas, talhos de veduras, pó de café, guardanapo de papel picado, folhas secas das árvores,etc. Em dois meses, vi acontecer o milagre: surgira o húmus na segunda caixa, o caldo grosso escorrendo para a terceira e minhocas indo em busca de novos alimentos na primeira caixa. Era uma fábrica de húmus com que o jardineiro e eu enriquecemos vasos, canteiros, até que decidimos, enfim, criar um minhocário maior.

Há, hoje, no Brasil, uma onda crescente de pequeninos minhocultores que produzem, do seu próprio lixo, húmus fertilíssimo para jardinagem própria, para contato mais verdadeiro com a natureza. Fico pensando em como uma cidade toda poderia transformar-se se casas, apartamentos, residências, até mesmo empresas tivessem seus minhocários, produzindo húmus para os canteiros de plantas e de flores. E por que não a Prefeitura, reciclando o lixo, com enormes minhocários para abastecer praças e jardins?

A experiência de ver o milagre cotidiano das minhocas é um enriquecimento humanístico pessoal. Com um mínimo de sabedoria, o homem, a partir das minhocas, pode perceber a sua estupidez ao desperdiçar tempo, sensibilidade, talentos em atividades predatórias quando, em sua própria casa, pode acompanhar o milagre de minhocas na transformação do lixo humano em riqueza natural. Um punhado de minhocas é mais importante, tenho certeza, de que milhões de pessoas humanas ensandecidas pelo materialismo egoístico e suicida.

Se, antes de games no computador, déssemos “casas de minhocas” às crianças, elas iriam deslumbrar-se com os milagres que, diante de nossos olhos, apenas cegos não vêem ou não querem enxergar. Volto a insistir, pois sinto ser preciso fazê-lo mais e mais: a palavra homem deriva de húmus. Logo, homem é terra. Se a terra é boa, o homem será bom. E ruim, em terra ruim. O desumano, aliás, é o sem-húmus. Bom dia.

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