“Miss” Árvore

Miss ÁrvoreDuas notícias – uma como que em oposição à outra – podem servir de reflexão a quem, ainda, tenha capacidade de refletir. Uma delas mostra a preocupação, de parte da população de Sorocaba, com a chegada e instalação de uma companhia japonesa de automóveis. As mudanças que já ocorrem na cidade mostram um pequeno retrato do que está por vir, com o aumento do caos urbano, a devastação dos ambientes, a multiplicação de condomínios, a elevação populacional, a necessidade de ampliar estruturas já deficientes. Já há o anúncio do caos que, aliás, parece satisfazer apenas ânsias e ganâncias de interessados em lucros cada vez maiores, seja na esfera pública como na privada.

A outra notícia, quase singela, vem de Tatuí. A adorável Tatuí de Paulo Setúbal, de seresteiros, de músicos, de sensibilidade coletiva aguçada acaba de criar um concurso revelador da consciência coletiva em defesa de si mesma. Trata-se do “Miss Árvore”, certame para a população escolher quais as cinco mais belas árvores da cidade, a “Miss” principal, as árvores princesas, a árvore-simpatia. Só podem votar os moradores da cidade e entrarão no concurso árvores plantadas em frente das casas, nas calçadas, ou nos quintais. Tatuí ainda celebra os seus quintais. Quantos, ainda, restaram em Piracicaba?

O que me amargura – confesso-o com a angústia de quem conhece o antes e vê o agora – é a devastação que vejo, numa cidade que primou pela beleza, por seu vínculo visceral com a natureza. Lembro-me de, há cerca de 20 anos, ter-me deparado com um Secretário do Meio Ambiente municipal comandando, ele próprio, a derrubada de árvores na rua Tiradentes, rua que, ao longo de toda dela, tinha as calçadas arborizadas, um primor de cartão postal. Indignado, perguntei-lhe a razão daquele crime e, como se eu fosse um idiota, ele me disse que eram árvores doentes, todas elas, cujas raízes estavam deformando calçadas e penetrando em alicerces residenciais. Trata-se de árvores pelo menos cinqüentenárias. E o Secretário garantiu: “Serão plantadas outras em seu lugar.” Nunca aconteceu.

Quando da construção do Paço Municipal, junto ao Parque da Rua do Porto, meu velho amigo Jaime Pereira, falecido dono e criador da Cicat, mostrou-me, do alto da obra, toda aquela vastidão e a garantia que sua empresa dava a Piracicaba: “Neste parque, plantaremos 10 mil árvores.” Jaime morreu e todos sabemos o que aconteceu após sua morte.

Assisti à destruição do “Jardim da Ponte”, antigo Parque Sachs, para a construção do Hotel Beira-Rio, obsessão de Luciano Guidotti. Que, também, destruiu o Largo de São Benedito, derrubando palmeiras imperiais, conforme já narrei responsabilizado João Chaddad de cumplicidade. Assisti à morte, também, do Parque do Barão, no último governo de Samuel Neves, para a construção do Estádio e do Ginásio Municipal. Na minha primeira infância, vi a destruição do antigo jardim central para que Jorge Pacheco e Chaves realizasse seus delírios de construir uma réplica das Tulherias em Piracicaba. Lembro-me das grandes e imensas chácaras arborizadas onde está, hoje, o Jardim Elite, as do Piracicamirim, as do bairro Dois Córregos.

E louvo a sabedoria magnânima da família Pacheco e Chaves, que conseguiu preservar esse patrimônio inavaliável que é a Chácara Nazareth. Tenho uma revista de 1920, do Rio de Janeiro, que mostra a Chácara Nazareth como um exemplo de preservação da natureza, onde, à época, os Conceição e Pacheco e Chaves tinham plantado pelo menos um de quase todos os exemplares de árvores frutíferas do Brasil. Vi mais e tanto que, agora, já me dói lembrar. E não estranharei se, em nome de qualquer coisa, se destruam as pedreiras do Bongue, pois os ladrões de paisagem são insaciáveis.

As soluções são tão simples que até espantam. Estão na boca do povo, de todos os povos: “em vez de reclamar da escuridão, acenda uma vela”; “se cada um limpar a frente de sua casa, a cidade toda estará limpa.” Tatuí, com a escolha de sua “Miss Árvore”, nos dá um aceno quase simplório de civilidade humanizada. E dizer que está em Piracicaba uma das maiores instituições mundiais ligadas à natureza, a nossa ESALQ, que tem como patrono o maior de nossos plantadores de árvores, o próprio Luiz Vicente de Souza Queiroz. Por que não pedirmos socorro à USP, para, aqui em nossa terra, reviver o espírito de Luiz de Queiroz e planejar nossas praças e jardins? Acho que sei a resposta. Bom dia.

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