Morte de Liz, morte de um mundo.

Na verdade, na verdade, sou eu que já vivi demais. O meu mundo – esse, de uma geração privilegiada – está acabando tão dolorosamente que a impressão minha, de estar ficando para a semente, é agudamente solitária. Agora, com a morte de Elizabeth Taylor – a nossa Liz – como será possível aceitar o mundo? Como será possível viver num mundo sem Elizabeth Taylor? Possível será. Mas sem graça alguma.

Querem saber de uma coisa? Pois vai lá, sem medo de confessar: estou com vontade de chorar. Elizabeth Taylor, a adorável Liz, faz parte de minha vida desde quando eu, criancinha, ia ao cinema para assistir aos filmes da Lassie, a cachorra dos meus sonhos. O Joãozinho Feliciano, negro adorável que trabalhava na casa de meus pais, cuidava de mim e me levava ao Cine São José. Até hoje, já idoso, não me conforme de não ter tido, na vida, uma Lassie, companheira de Liz Taylor, a garotinha que encantava o mundo com seus olhos com de violeta, a voz nervosa, a risada estridente, o sorriso sedutor. Ava Gardner me desculpe, mas Elizabeth Taylor foi o rosto mais belo e mais perfeito do cinema mundial. Se Ava era “o mais belo animal da terra”, no dizer de Hemingway, isso se devia, certamente, à sua sensualidade também animal. Liz Taylor, porém, era o encanto, a beleza humana feita de candura e de maldade. Até como pessoa, Liz foi assim: generosa ao extremo, egoísta também extremada.

Não me lembro de filme de Liz a que não assisti. Bastava seu nome para atrair multidões. E bastava seu rosto para encantar platéias. A própria vida pessoal dela foi cinematográfica, entre tragédias e comédias, entre dores e alegrias, entre nobreza e vulgaridade. Com Liz, não se sabia o que era ficção, o que era realidade. Foi ficção seu desempenho, com Rock Hudson, em “Assim caminha a Humanidade”, ou ficção foi a grande cruzada contra a AIDS que Liz promoveu tendo Rock Hudson como bandeira de luta? Foi real ou ficção o amor feito de ferocidades e de encantamentos entre ela e Richard Burton, a ponto de não se saber se Cleópatra era personagem ou era ela mesma? Idas e vindas, encontros e desencontros, Liz e Burton viveram o mais tórrido e atribulado romance que Hollywood conheceu. Para sofrimento e inveja de todos nós.

A Liz Taylor, tudo foi perdoado: casamentos desastrados, adultérios, histerias. Ela era aquilo que Nietzsche filosofara: “Humana,demasiado humana.” O seu desempenho de mulher histérica e “Gata de Teto de Zinco Quente” conseguiu explicar, ao mundo leigo, o que é realmente a histeria feminina, o amor não correspondido, o desejo contido. E em “De repente, no último Verão”, numa inesquecível esgrima de interpretação com Katherine Hepburn? Ora, é melhor parar por aqui. Pois fico com pena, pena intensa, dessa nova geração que se encanta com Lady Gaga, com Madonna, com efeitos especiais. Houve, antes disso, um mundo de arte, de beleza, de encantamento do qual Elizabeth Taylor foi um dos ícones.

Começo a entender melhor a nossa canção imortal: “Tristeza não tem fim; felicidade, sim.” Há um mundo em extinção. A morte de Elizabeth Taylor é uma das últimas pás de cal sepultando-o. Acho que está na hora de eu também desistir. Ou ficar escondido desse caos sem graça e odioso que tenta violentar-nos dia após dia. Sem Liz, fica mais difícil estar por aqui. Bom dia.

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