Muitos reis, poucos heróis

picture (29)Quase sempre, insiste-se, com pedantismo negativista, na observação do dramaturgo Brecht, de ser infeliz o povo que precisa de heróis. Mas precisamos ter coragem para contraditar o teatrólogo, pois todos os povos precisam de heróis, necessitam de homens e mulheres que lhes sirvam de referenciais. E de acontecimentos épicos, heróicos, de que possam se orgulhar. Não existiram Ilíada e Odisséia, não existiriam Os Lusíadas, não fossem heróis e as sagas que viveram. A pátria humana se constrói a partir de símbolos que a dignificaram, fortalecendo-se com outros que deem continuidade a essa história.

No Dia de Tiradentes, não errará quem tiver receio de perguntar, a jovens estudantes, quem foi esse homem, qual a sua história, porque se tornou patriarca e símbolo da busca brasileira pela liberdade. Pior será se indagarmos sobre a história de Frei Caneca, de Anita Garibaldi, do Barão do Rio Branco, de tantos outros que permanecem ocultos nos baús de nossa frágil memória. O Brasil é um país ainda nostálgico de reis e de rainhas, de duques e de barões, de príncipes e princesas.

De Tiradentes, o proto-mártir da liberdade deste país, pouco se sabe, uma história que apenas e superficialmente é lembrada como mais um feriado nacional. No entanto, os meios de comunicação não se cansam de incensar e de louvar reis e rainhas brasileiras. São três, os grandes reis do Brasil: Momo, Pelé e Roberto Carlos. Quanto a rainhas, temos muitas, como se existisse uma para cada escolha: rainha dos baixinhos, rainha da noite, rainha do carnaval, rainha do rádio, rainha da tevê.

País sem referenciais, sem símbolos, sem exemplos de antepassados que dignifiquem o povo, esse será, sempre, país mediocrizado por valores que não merecem qualquer respeito. O Brasil parece destinado a uma história periférica, sempre a reboque de outras nações, emprestando heróis e imitando-os. Heróis dos Estados Unidos, daquela grande história – assim como datas cívicas de outros países – são mais celebrados e conhecidos entre nós do que aqueles que construíram esses séculos de lutas, de conquistas e, também, de decepções nacionais.

Recuperar a história de Tiradentes – nesse tempo em que o Brasil já é reconhecido como potência econômica e política – seria fortalecer a retomada da seriedade de nossos esforços, dessa busca incessante para nos tornarmos, finalmente, uma nação séria e com futuro pelo menos feito de esperanças. Se não honrarmos os nossos heróis de verdade, continuaremos lamentando-nos de bandidos e de malandros que ocupam os grandes cargos da política nacional. Uns morrem pela liberdade, outros usufruem dela. Bom dia.

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