Mulheres apaixonadas e apaixonantes

picture (9)À véspera do Dia da Mulher, é impossível não pensar em mulheres apaixonadas e apaixonantes. Não se trata da banalidade de novelas. Aliás, novelas, não as vejo desde “Gabriela”, o admirável momento, penso eu, da Sônia Braga. E, por algum tempo, vi aquela em que se queria saber do assassino da Odete Roitman, interpretada por Beatriz Segall. Dessa, não me esqueço. Pois foi quando tive o impulso definitivo para, ainda outra vez, dar outro rumo à vida.

Não me esqueço. Era uma manhã brilhante, diáfana. Eu trabalhara até a madrugada, levantei-me para o café, a mãe de meus filhos sentou-se à mesa comigo, perguntei-lhe: “Quem matou a Odete Roitman, já se sabe?” Então, foi como se eu mesmo me tivesse dado um soco no estômago. Morávamos num lugar distante, pacífico, aberto à natureza. Das janelas, víamos vacas pastando, um lago encantador, abundância de flores, ouvíamos cucuricar de galos, cricrilar de grilos, a manhã explodia em belezas e, bolas, eu lá, perguntando: “Quem matou Odete Roitman?” Foi como aquela luz que derrubou Saulo do cavalo. Levei o choque, mudei de vida.

Nada tenho contra novelas. Apenas não tenho paciência de vê-las, televisão faz parte de minha vida de uma forma mais serena. Mulheres apaixonadas são as que Piracicaba sempre teve e basta ver uma reflexão de Cidinha Mahle – ela que é outra de nossas mulheres apaixonadas e apaixonantes – em torno de mulheres que construíram Piracicaba, grandes mulheres ao longo de nossa história.(V.aqui) Cidinha tinha um projeto de escrever um livro sobre elas, suas memórias, não sei se a idéia foi adiante. Na verdade, os Mahle, Cidinha e Ernst, precisariam deixar-nos por escrito tudo o que viram, ouviram, viveram.

Piracicaba pode envaidecer-se por mulheres apaixonadas que deixaram sua marca em nossa história. E há, começo a perceber, quase que uma fome em se saber de pessoas, de conquistas, de lutas, de estilos de vida de uma cidade que parece abrir-se para um renascimento. Se já havia percebido, nos fascículos do “Memorial de Piracicaba- Almanaque 2003”, o interesse da população, mais ainda vejo, agora, neste jornal eletrônico, o entusiasmante interesse de leitores por nosso história, por figuras como Jane Conceição, barões de Serra Negra e de Rezende, de personalidades marcantes dessa história. Generosos, os fantasmas estão no ar.

Foi-me impactante, quando escrevi o “Memorial de Piracicaba-2000”, ter ido de encontro a Lydia de Rezende. Não fui ao, fui de encontro a ela, uma batida, um choque. Pois, conhecendo fiapos da vida de Lydia, fiquei fascinado e, então, escrevi ter-me apaixonado por ela. Ora, não nego minhas paixões, mais estranhas e impossíveis sejam elas. Aquela era a verdade: eu me apaixonara atemporal e imaginariamente por Lydia. Acontecera com o escritor Coelho Neto e com toda uma geração de brasileiros, encantados com a mulher admirável que espalhou belezas e bondade por onde passou. Coelho Neto consagrou Lydia como “símbolo da mulher brasileira”. Rezendinos têm motivos para, ainda hoje, reverenciar a memória de Lydia de Rezende.

Nossas escritoras precisariam narrar a história dessas mulheres apaixonadas e apaixonantes de Piracicaba cujas almas ainda passeiam por aqui. Algumas delas, espantam por sua grandeza. Por exemplo, Branca de Azevedo. Penso nela e tremo. Quem a ouviu em pregação cívica na sacada do antigo Teatro Santo Estêvão, viu, também, a imagem feminina de Zeus. Daquela sacada, Dona Branca parecia emitir raios e relâmpagos, incendiando a cidade de fervor cívico.

Era tão bonito que amedrontava. Ou tão medonho que ficava bonito. Que, nesta véspera do Dia Internacional da Mulher, inflemos o coração de orgulho: Piracicaba sempre teve mulheres apaixonadas demais. E apaixonantes. Bom dia.

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