Não existe “largo seco” no Bom Jesus

SDC10347A explicação do vereador  Laércio Trevisan – tentando justificar a sua proposta de dar nome de um cidadão ao Largo do Bom Jesus – acabou transformando-se, para ele, em emenda pior do que o soneto. Diante da reação indignada de muitos que se indignaram – entre os quais este jornalista – Trevisan afirmou e reafirmou jamais ter tido aquela intenção, referindo a um “largo seco” no centenário Lardo do Bom Jesus. Mas que “largo seco”? De onde surgiu esse absurdo?

Toda aquela área, o povo a batizou como Largo do Bom Jesus. E, insisto, centenariamente.  E dou meu testemunho pessoal, emocionado e saudoso. Foi ali, no Largo do Bom Jesus, que me apaixonei, à primeira vista, por Mariana, que viria a ser mãe de meus filhos.  Éramos duas crianças, de apenas 14 anos. Ela, moradora do bairro; eu, aluno do Colégio Dom Bosco. E, aos domingos, os meninos salesianos eram literalmente obrigados a assistir à missa na Igreja do Bom Jesus. Até a caderneta tinha que ser “carimbada”, para confirmar presença, pelo padre celebrante.

Eram dias de quermesse no largo da igreja. E as barracas instalavam-se justamente à beira da rua Bom Jesus, para dar mais espaço aos participantes dos festejos. Eu estava encostado a uma das barracas, quando vi a bela menina – com sapatinhos de verniz, meias soquetes, saia florida, blusinha cor de rosa – ao pé da escadaria, conversando com as amiguinhas. Nossos olhares cruzaram-se. E, na barraquinha da quermesse – ainda com resquícios da noite anterior –  naquela manhã de domingo, meus joelhos tremeram.

Todo aquele espaço era um largo só, o Largo do Bom Jesus. Aconteceu que, tempos depois – quando os automóveis se tornaram mais acessíveis ao povo – abriu-se uma passagem no largo, para os carros passarem, especialmente para a facilidade de acesso de noivas, de pais com seus bebês para batizar.  Foi só isso, uma passagem para automóveis. E aquele pedacinho de terreno – chamemo-lo de ilha – foi separado mas continuou pertencendo ao largo centenário. Que maluquice – ou ignorância  – é essa de chamá-lo de “largo seco”?

Para não cometer erros – pois a memória é falível – recorri-me ao Chico França, o dr.Francisco F. Camargo Filho, um dos nossos mais lúcidos conhecedores da história e da geografia piracicabanas. O meu caro Chico França confirmou: “Ali, é tudo largo do Bom Jesus”.

E fortaleceu minhas lembranças ao descrever aquele espaço sagrado de Piracicaba:

“O largo fica entre as ruas Morais Barros, Bom Jesus, Alfredo Guedes e a Trav. Felisbina Monteiro. Nos  cantos do largo, havia Padaria Bom Jesus (ainda há), o bar do Amélio Pizzinato e a farmácia veterinária do Pitta (Morais com Bom Jesus), Bar do Zotelli e fábrica de potes dos portugueses Francisco e José Couto (Morais com Alfredo Guedes); a casa paroquial (Alfredo Guedes com Felisbina Monteiro); a fábrica de bolachas Jupiter e macarrão Aurora, descendo a travessa em direção à Bom jesus, e mais na esquina uma casa em que os padres salesianos moraram enquanto o colégio não estava pronto; na Bom Jesus, em frente à  travessa, o Depósito da Antártica do Zé Alves.”

Teria sido mais honesto se o vereador Laércio Trevisan apenas reconhecesse ter sido infeliz na sua propositura. E não ser levado, talvez por falsos conselheiros, a falar de um “largo seco” que não passa de fantasia. Ou de desculpa esfarrapada. Esse episódio, infelizmente, apenas é outra prova contundente de como Piracicaba tem permitido que se mate a sua própria história. E, se golpes vêm até do Legislativo, o que devemos esperar, senão uma tragédia cultural? Bom dia.

12 comentários

  1. Sonia Maria Delfini em 28/05/2014 às 09:57

    Muito bem falado Cecílio……

  2. Gleison em 28/05/2014 às 12:03

    Ora, se o cidadão a ser homenageado – não sei de quem se trata, talvez seja até merecida a honraria – é tão merecedor da lembrança, por que não atribuir seu nome a uma das inúmeras vias públicas que estão sendo abertas nos novos loteamentos do município? fica a sugestão…

  3. Eduardo em 28/05/2014 às 12:32

    Muito bem. Cheguei até a ir ao local pra conferir, porém fiquei na dúvida e não escrevi nada. Grato pelo elucidamento cabal.

    Ao invés de se preocupar com o largo seco, daria como sugestão ao nobre edil se preocupar com o rio seco e seus “cantareiras”.

  4. wilhe gerdes em 28/05/2014 às 12:53

    O vereador menino ou menino vereador, me parece ávido para se apresentar cotidianamente nas mídias. Daí, tal e qual o nosso tempo de menino que também o fomos,é pego de calças curtas, tipo ‘Bigilito”, sabe como é: entre pula brejo e abaixo dos joelhos…bem no meio das canelas.
    É, Cecílio! Fosse no nosso tempo, levaria no mínimo um puxão de orelhas pela travessuras repetidas.

  5. Francisco França Camargo Filho em 28/05/2014 às 13:35

    Agradeço a citação do meu nome feita pelo Cecílio, mas, deixo por conta de sua generosidade o título de “Dr.”, bem como a denominação de historiador.

  6. Tadeu em 29/05/2014 às 00:01

    É Cecílio, você sabe melhor do que muitos: os nossos medíocres políticos de hoje, quando flagrados na mentira ou numa situação constrangedora e sem explicação o que fazem?? Oras, contam outra mentira ou desdizem o que disserem tentando engambelar o público; quando não colocam a culpa na imprensa! O que se tira de positivo dessa história é a rápida reação dos moradores do bairro alto e da comunidade do largo do Bom Jesus, além dos seus lúcidos artigos. Se me permitir uma sugestão, escreva também sobre os fatos históricos dos demais logradouros que citou no artigo inicial. Assim talvez quem sabe nossos “caríssimos” edis aprendam um pouco com a linda história de nossa querida Piracicaba. PS. Quando digo “caríssimos” quero dizer “vereadores caríssimos” com o auto aumento de salário (subsídio) de 66% e não o contrário!!!!!!

  7. Geli Marchiori em 30/05/2014 às 09:37

    Perfeito, Cecílio, em um belo texto de doces lembranças… Morei próximo ao Largo e carrego também as minhas recordações, mas sem a sorte de encontrar um grande amor… rsrsr Enfim, qual será a próxima pataquada do vereador???

  8. Eloah Margoni em 30/05/2014 às 10:19

    Crônica bela e crítica do nosso Cecílio! E da parte do vereador foram atitudes ridículas, mostrando ignorância das coisas históricas da cidade e tb uma criatividade torta e destemperada, seca de boas idéias.

  9. robertalessablog em 30/05/2014 às 12:04

    Cecílio, fico a pensar aqui com meus botões:

    Botão 1 (de madrepérola): Nossas memórias estão se extinguindo gradualmente, e novas verdades sendo construídas à bel prazer e conveniência de quem deseja a manutenção do que está por aí.

    Botão 2 – de casca de coco: Seria tão interessante elevar nossos olhares para questões pertinentes à todas as imposturas sociais existentes, tentando realmente esclarecer nossas visões diante dos fatos, mas vejo que nem todos mantém a coragem de ler, falar, escrever o que realmente sente e percebe; encolhendo-se aos cantos do subsistir com migalhas e fragmentos de todo processo histórico, artístico religioso e cultural de nossa região; e pior aceitando a geração de uma história dirigida e direcionada à destruição total dos reais fatos ocorridos. .

    Botão 3 (forradinho): O que se esconde por trás dessa maquilagem social onde certamente muitos bolsos receberão as forrações oriundas dos benefícios de atos que de pequenos nada tem, pois oculta intensões e práticas escusas.

    Botão 4 (de pressão): Sempre ocorre em meu pensar a falta de resistência diante das imposturas sócio administrativas que tabulam no município formas forçosas de aceitação desse estado que oscila entre lucros financeiros pessoais e abandono proposital de nossa história, e no meio disso tudo o ignorar de uma população a bailar na praça a música que a banda toca.

    Botão 5 (de plástico): Numa época de desperdício exacerbado de tudo e de todos, utilizar o tempo para reflexão voltadas ao desvelar daquilo que se esconde por trás dos atos de nossos governantes, é mexer em feridas antigas, onde a fórmula sociais se repetem e como tal, em detrimento da banalização de posturas politizadas, nos tornamos cidadãos de atos e reações repetitivas e desprovidas de real mudança que visem o solucionar questões referente à cidade..

    Botão 6 (de osso buco): Ainda bem que existem pessoas que são verdadeiros “osso duros de roer” provendo-nos dos saberes que cultuam e mantém oral ou documentalmente fatos que estão em linha direta para o esquecimento coletivo. O tempo passa e serve de borracha para apagar as memórias que deveriam ser reverenciadas enquanto fardo e fato cultural de nossa ancestralidade, nossa riqueza maior.

    Botão 7 (de rosa): À você querido e tão necessário ser que mantém vívida a memória local e que não teme a cor da tinta posta naquilo que escreve. Gratidão ao potes dourados feito de gente de fibra que sabem da memória do local, do seu local e do local coletivo, de uma população que ainda não despertou para a valorização de tudo que nos faz ser, ter e permanecer seres humanos.

    Carinho e Afeto.

  10. ODE À CECÍLIO | roberta lessa em 30/05/2014 às 12:57

    […] 1 – Texto na íntegra no presente link: http://www.aprovincia.com.br/bom-dia/nao-existe-largo-seco-bom-jesus/#comment-5342 […]

  11. toni em 30/05/2014 às 15:21

    Largo Seco é a cabeça desse tal de Laércio.

  12. Urbano Zotelli em 04/06/2014 às 13:15

    BOM DIA, Cecílio, o Bar do Zotelli citado era do meu saudoso pai. Você tirou do fundo do baú tantas lembranças da minha infância,,, Faltou citar o armazém do Chorilli, depois do Vitório Marcio, na outra esquina da Morais Barros com Alfredo Guedes. Saudades…

Deixe um comentário