Não se pode esquecer: tortura nunca mais!

TorturaA revista “Isto é”, na edição ainda nas bancas, publica um terrível depoimento de um jovem homem, agora com 37 anos, que foi torturado pela ditadura militar quando tinha apenas pouco mais de um ano de idade. Os pais da criança tinham sido presos pelos torturadores e, como forma de chantagem, os bárbaros agrediam a criança para tentar obter confissões dos genitores. O nome do menino, hoje um homem com graves problemas psicológicos: Carlos Alexandre Azevedo. Seus pais: Dermi e Darcy Azevedo.

Piracicaba conhece o casal, conheceu aquela criança. Eu os conheci muito de perto e sei como e o que sofreram. E sei, também, da forma generosa, fraterna com que Piracicaba os acolheu, oferecendo-lhes novas oportunidades de vida. Mas foi quase inútil, pois as marcas da tortura e da violência haviam-lhes entrado na alma. Dermi Azevedo foi meu funcionário em O Diário, jornalista brilhante, cultura ampla, dignidade intocada, um homem forjado por ideais verdadeiramente cristãos, entre os quais incluía-se a consciência plena dos valores fundamentais da liberdade e da justiça.

Dermy Azevedo foi acolhido como professor pela UNIMEP, num dos momentos mais confusos da vida nacional, em 1981, quando, ao mesmo tempo em que se acenava para a abertura democrática, intensificavam-se as violências, como se fossem os últimos momentos da fúria da besta. A formação católica de Dermy era impressionante pela revelação de uma fé madura, sem carolices e sem pietismos, mas forjada na razão, no conhecimento, na cultura. Era, ele, um dos intelectuais mais queridos do Cardeal Arns, com quem trabalhou muito próximo, sendo, também, acolhido e respeitado pelo hoje Bispo Emérito de Piracicaba, D.Eduardo Koaik, um homem que teve atuação formidável ao tempo da ditadura, em defesa da justiça e da liberdade.

Conheci Dermy Azevedo num momento também grave de minha vida, quando botocudos municipais se colocavam ao mesmo mesmo nível dos ditadores federais e estaduais: ao rés do chão. Pedro Aleixo – grande político, tribuno e jurista, sábio mineiro – já nos advertira: “Nas ditaduras, o perigo está no guarda da esquina.” Piracicaba foi uma cidade pródiga em guardas de esquina, tendo deixado filhotes que ainda estão no poder, falsificados de democratas quando não passam, na verdade, de oportunistas e farsantes. Pois bem. Após dezenas de detenções rápidas e depoimentos no Deops, no G-Can de Campinas, e após dezenas de processos – nos quais se mancomunavam políticos, promotores públicos, empresários, até juízes – e sob a lei da ditadura, acabei tendo prisões mais longas, ainda que domiciliares. Nem o direito de trabalhar me foi assegurado. Meu jornal, O Diário, já perseguido e resistindo às mordaças, naufragava. Políticos medíocres, ainda vivos, promoviam boicotes publicitários, como, ainda agora, tentam boicotar A Província, numa nova versão de relações promíscuas, de banditismo político-administrativo. Aviso aos navegantes dos mares das negociatas: ainda estamos vivos! Está na hora, também, de dar um basta aos que se tornaram gigolôs da democracia, usando-a para si mesmos.

Impedido de trabalhar, foi quando chamei Dermy Azevedo para, em minha ausência, ser o editor de O Diário. Corajosamente – ele que fora torturado, que sofria de graves problemas psicológicos – aceitou, não fugindo à luta. E se tornou, na verdade, o último editor de plena consciência jornalística e democrática a comandar aquele jornal que, depois, a pouco e pouco, foi morrendo. A passagem de Dermy e Darcy Azevedo – pela UNIMEP, pelo O Diário, na vida da comunidade – está registrada em nossa história como outro momento de grandeza de nossa cidade, que sabe acolher, que sabe proteger, que sabe valorizar, apesar de equívocos e de simulações que sempre os mesmos grupos cometem ao longo do tempo.

Quando setores aristocráticos do Brasil ficam bazofiando em termos de democracia – querendo usá-la, falaciosamente, em proveito próprio – espalhando conceitos errados, armando confusões, insistindo para a memória ser apagada ou esquecida, a hora é de repetir, de enfatizar: ” Brasil: Tortura Nunca Mais!” A “Isto É”, para piracicabanos com dignidade e vergonha na cara, mostra um pedacinho do que aconteceu aqui, exigindo com que nos lembremos de que, de todas as cidades do Interior do Brasil, Piracicaba foi a que mais resistiu à ditadura, com reações e movimentos que passaram à História. Honre-se a memória de João Herrmann Neto, por suas loucuras desafiadoras; honrem-se a UNIMEP e Elias Boaventura, que resistiram até o fim. E reivindico respeito aos moços de O Diário – jornalistas, funcionários, colaboradores – que fomos o primeiro grito de protesto quando da edição do AI-5, que lutamos por mais de duas décadas, talvez até o esgotamento de nós mesmos.

Torturadores não merecem perdão. O crime é de lesa humanidade. Tentar absolvê-los é trabalhar para destruir as sementes de uma democracia verdadeira que, infelizmente, ainda não está totalmente implantada. Mais do que anistia, o Brasil precisa de Justiça. E nenhum anistiado, que receba compensação financeira como se fosse indenização, poderá ressarcir-se dos graves e insuperáveis danos psicológicos e morais sofridos. Não há revanche alguma. Há busca de Justiça. E bom dia.

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