Natal da primeira vez

picture (17)Prometi-me, há uns dois anos – e venho cumprindo parte disso – tentar transformar até o cotidiano da vida numa primeira vez. Cada despertar seria um primeiro amanhecer. E, ao dormir, um primeiro adormecer. No amor, cada vez uma primeira vez de amar. E o esforço tem sido para deixar de ser tolo fingindo que as coisas apenas se repetem, pois isso não é verdade: tudo é único, inimitável, irrepetível. A grande tolice é termos transformado em banal o que é singular. E, em vulgar, o que é feito de filigranas de magnificência.

Não existe um ontem. Há a continuação dele, a que demos o nome de hoje. Por isso o Natal passado não acabou. E nem a emoção e o susto daquela primeira chuva que tomei no quintal de minha infância, sentindo-a como bênção na nudez do corpo de menino. Houve outras vezes, sei que houve. Mas não me lembro delas e agora sei a razão: eles, banhos de chuva que tomei em plena nudez, foram apenas a continuação do primeiro. Eu é que não percebera esse milagre, o “mysterium tremendum”, de tudo ser único, original, inimitável mesmo quando se repete.

Comecei com o abrir matinal de minha janela. Pensei que a paisagem fosse sempre a mesma: o jardim, as flores, o talude coberto de plantas, primaveras escandalosas esparramando-se, borboletas voando, passarinhos fazendo festa. E não é assim. Cada manhã é uma primeira vez. Pois é o olhar que sabe das coisas, não apenas os olhos que, quase sempre, olham conforme a razão. Que se deixe o olhar caminhar sozinho e, então, ele enxerga o que existia e não se vira antes. É o mesmo céu, mas não é o mesmo. Cada olhar é uma primeira vez. E a flor da alamandra era a de ontem mas não era a mesma na sua continuação para o hoje. Antes, eu a olhara pela primeira vez e, se olhasse pela segunda, eu a veria da mesma forma. Depois, olhei-a novamente pela primeira vez. E ela era a mesma, mas sendo outra.

Nada se repete, pois é o único que apenas continua. E, sendo único, sempre é uma primeira vez. Sei lá se me faço entender. Mas não estou dizendo de entender, nem de compreender, nem de pensar. Digo de sentir. Ou de apenas contemplar.

Pois assim será este meu outro Natal, Natal que me ofereço a mim mesmo, a descoberta de ser, ele, ainda o de minha infância, aquele que me marcou, o primeiro que existiu na história de minhas emoções. Naquele Natal, não foi o Menino Jesus quem nasceu. Fui eu, a criança nascida naquela noite inesperada em que – dormindo, agitado, à espera do milagre de Natal – vi um vulto colocando um presente aos pés de minha cama. Era meu pai e o presente, ele o fizera com suas próprias mãos de artista da madeira: um caminhãozinho e um cavalinho de pau.

Então, entendi. O menino sagrado, o menino festejado na noite de Natal – aquele menino era eu. Pois meu pai não fora levar presentes para Jesus: ele me santificara com seu amor. Ele era, ao mesmo tempo, José, rei mago, pastor das cabras, Papai Noel. Portanto – por que não entendi antes? – eu fui consagrado pelo amor de meus pais. Para eles, naquele Natal, nascia eu. Foi a primeira vez, o primeiro Natal. E ele tanto me permaneceu nas lembranças que, agora, entendi: a primeira vez é única. E será eterna, se, em cada dia da vida, soubermos repeti-la no sagrado do que significa.

Neste Natal, nascerei para mim mesmo. Pedindo ao outro menino, Jesus, que me ajude a manter o olhar limpo de quem haverá – promessa que renovo – de tudo ver e fazer com o deslumbramento da primeira vez. Quando a noite chegar, irei procurar o cavalinho de madeira daquela primeira vez. Estará em algum lugar. Bom dia. (Ilustração: Araken Martins.)

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