Natal e nostalgia do não ter

picture (14)É-me impossível disfarçar desconforto diante da por assim dizer patológica pobre tristeza da ornamentação de Natal em Piracicaba. Já enfarei o leitor, ao longo da vida, por insistir nessa tecla. Desculpem-me, mas ainda preciso fazê-lo. Em Natal, sinto-me sempre enganado.

Não incorrerei no agora lugar comum de repetir a pergunta machadiana: “Mudou o Natal, mudei eu?” Tudo muda. A questão, parece, está em saber o que restou. Pois, já há muitos anos, tem havido uma competição, também de marketing, entre como que dois produtos: de um lado, o menino nascido na manjedoura; de outro, o velho de barbas que presenteia crianças. O marketing de Papai Noel parece ter sido mais eficiente. E Noel, por ora, vai vencendo. A festa é dele.

Ora, aqui ou ali, nestas ou naquelas famílias, a idéia de um natal de rememorações cristãs ainda resiste e sobrevive. E, se não genuinamente cristã, há que se reconhecer seja uma festa da família, de encontro e de reencontro de familiares. Orações e cultos ainda existem, igrejas acolhem seus fiéis. Há pelo menos vestígios preservados do sagrado. Mas Papai Noel entrou de penetra. .

O meu desconforto é o de, no meio da festa, não saber qual o ator principal para, então, entender o que se comemora. O que, afinal, é a festa: outro aniversário de Jesus, a chegada de Papai Noel, amigos-secretos, reuniões familiares, festas de despedidas, confraternizações forçadas? Não sei. E a pobre tristeza da ornamentação das ruas de Piracicaba me deixa ainda mais desconfortável pois, de uma certa maneira, é uma pobreza de luto. E se for Quaresma?

Chego a pensar, por momentos, que prefeitura, indústria e comércio os com mais consciência cristã. Então, essa pobreza das ruas seria a pobreza da manjedoura, um retorno ao espírito da fé cristã dos primeiros tempos. “Abaixo Papai Noel, abaixo o Natal capitalista”, estariam dizendo. E, bem-aventurados, teriam feito uma opção pelo Menino Jesus, ora, viva.

Mas, por outro lado, não é bem assim. Comerciantes querem vender. As ruas estão enlutadas, mas há um esforço quase desesperado para vender mais e mais. A dificuldade está em entender a lógica deles, esquisita e meio vesga: vestes de Quaresma para vendas de Natal. É o meu desconforto: o comércio está trabalhando a favor ou contra si próprio? E onde fica o povo, que – aturdido e pressionado pelas amarguras da necessidade – se deprime entre tantas sombras? Tirante o shopping, algumas lojas em bairros e no centro, tirante até mesmo algumas residências, a festa de cores e de luzes está pálida.

Há algo errado nessa pobreza triste. Pois o sistema capitalista tem uma lógica própria para a sua crueldade. Ele envenena com doçura, mata em conta gotas. O capitalismo aboliu qualquer hipótese de felicidade na face da terra, pois estimula e aguça desejos. E desejos são necessidades. E necessidade é o não-ter, a ausência, vazios, falta. Tudo se faz intenso: quanto maior o desejo, maior a necessidade de ter e maior a angústia de não-ter. Natal é isso.

Se Natal se transformou na grande festa do mercado, não há quem entenda essa negação da fantasia, da mágica das vendas: luzes, cores, sons, ilusões. Há multidões com os corações amargurados: a ceia que não vão ter, os presentes que não podem dar. Toda essa amargura aumenta numa cidade triste e soturna, em pleno Natal. Isso é perigosamente frustrante. Pois essa nostalgia do não-ter pode, de repente, se transformar em algo passional: a necessidade de ter a qualquer preço..

Natal é essa nostalgia do não-ter. E, sem luzes e decorações ainda que ilusórias, tudo fica pior. Bom dia.

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