Neno Nardin, o imortal

picture (40)Deveríamos parar, de vez, com essa tolice de que não existem pessoas insubstituíveis. Pois, na verdade, cada ser humano é único, absolutamente insubstituível, uma peça original, tão diferenciada uma da outra que nem as impressões digitais ou arcadas dentárias são iguais. Acontece, apenas, que, em suas funções e atuação no mundo, costumamos nos catalogar por profissão, por atividade, por ações. E estas, aos olhos do mundo, recebem qualificações nem sempre justas e honestas. Alguém com diploma superior, por mais frágil seja de caráter, sempre terá um espaço privilegiado. Ao passo que, por exemplo, um gari, pela humildade de sua profissão, nem sempre será reconhecido neste que, também, é papel essencial para as comunidades.

O ser humano é insubstituível. Mas há pessoas que por seu caráter, pela grandeza de alma, pela vida que levam, por sua visão de mundo, pelo espírito de solidariedade e de doação ao próximo, por seus talentos a serviço de todos – há pessoas que se tornam imortais na história humana. Neno Nardin, o Eugênio Nardin, foi um desses homens, raro homem que, de tão humilde, jamais permitiu fosse inteiramente revelado ou proclamado o imenso valor de sua obra artística e da construção de solidariedade humana que fez de sua vida pessoal.

Para mim, em especial, a morte de Neno Nardin é perda irreparável, como se parte de minha vida se tivesse ido com ele, uma parte visceral, pois é de minha infância as relações com esse homem maravilhoso, inesquecível e singular. Neno e meu pai eram amigos inseparáveis e ambos tinham paixão pela madeira, marcenaria e carpintaria. Na verdade, meu pai teve os Nardin como seus irmãos de alma: Paulo, Neno, Monsenhor Nardin. E, desde minha meninice, acompanhei suas conversas, seus devaneios, a paixão pela arte, o amor por Piracicaba e pela comunidade.

Miguelzinho Dutra, o pai da arte piracicabana e um dos nossos mais celebrados artistas, não deixou, em meu entender, herdeiros entre os seus filhos e descendentes, grandes artistas, também celebrados. O verdadeiro herdeiro de Miguelzinho Dutra, como se tivesse percorrido os mesmos caminhos em tempos diferentes, foi Neno Nardin, até mesmo na profunda religiosidade, no fervor católico. Desenhista, entalhador, escultor, pintor, musicista, violinista de talento especial, apaixonado por temas sacros e históricos, por retratos, paisagens, decorador, criador incansável, Neno Nardin foi e será um dos mais belos patrimônios humanos de Piracicaba, homem que nasceu para servir, para doar-se, para conviver com a beleza e espalhá-la.

O olhar de Neno Nardin espalhava serenidade e calma; sua voz era feita de doçuras; seu sorriso desarmava espíritos; sua boa vontade provocava ações generosas nos que, inevitavelmente, eram por ela contagiados. Ter sido amigo de Neno Nardin ou tê-lo conhecido será sempre privilégio especial dos que tiveram essa graça. E eu a tive.

Certa vez, ganhei, de um velho amigo, um presente inesperado e de valor histórico inestimável: eram dois móveis, uma mesa e um armário entalhados. Pedi auxílio de Neno para não apenas me orientar sobre a importância daquele presente, mas para tentar completá-lo com outras peças. Ele me levou ao fundo de sua oficina – a mais bagunça das oficinas do mundo e, por isso mesmo, talvez a mais encantadora – e me mostrou um conjunto de duas poltronas, mesa e sofás que ele entalhara mas de que não gostara. Falou-me: “Leve, são seus.” Até hoje, são peças que acaricio diariamente como um tesouro que recebi de um mágico das artes, vindo de seu coração ainda mais mágico. Em Piracicaba, por aí espalhado, há peças admiráveis de Neno Nardin que deveriam ser catalogadas, tombadas, preservadas como tesouros de valor histórico e artístico incalculáveis.

Neno Nardin, além de insubstituível, é imortal. Ficamos imensamente menores sem ela. E eu, em particular, com mais vazios na alma. O meu mundo tão belo, de pessoas singulares e especiais, está desaparecendo. Neno levou outro pedaço. E não estou gostando de tantos vazios. Deus, agora, está beijando as mãos de Neno Nardin, um de seus filhos favoritos. Bom dia.

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