Ninguém ama aquilo que não conhece

download (1)Tenho verdadeiro fascínio pela sabedoria de Agostinho de Hipona, Santo Agostinho, uma das mais poderosas inteligências já surgidas na humanidade. Sua sabedoria não é apenas patrimônio da Igreja Católica, mas de todo o mundo e em todos os tempos. E é esse pensador extraordinário quem nos ensinou: “Ninguém ama aquilo que não conhece.” Uma advertência e, também, um ponto de partida.

Por desconhecimento, o ignorante confunde a pedra bruta com o diamante. E o ouro com a bijuteria. Quem – sabendo estar na posse de um tesouro ou de viver num lugar privilegiado – haveria de desprezá-lo, de menosprezá-lo? A menos que fosse um bárbaro, haveria de cuidar, de preservar, de conservar, de proteger essa riqueza. Piracicaba é esse tesouro de preciosidade ímpar que – por ter-se tornado desconhecido a novas gerações e desprezado por verdadeiros facínoras – se tornou banalizado e vulgarizado, como se fosse uma lataria qualquer. Quem a conhece verdadeiramente é incapaz de não amá-la. Quem a desconhece, acaba mediocrizando-a com sua própria mediocridade.

Aprendi a conhecer Piracicaba – e, portanto, encantando-me com ela e amando-a – a partir de minha infância. E isso se deu por ouvir a sua história, a mim contada pelos mais velhos. E, depois, a conhecê-la, a desvendá-la, a procurar-lhe os segredos e mistérios, como o homem apaixonado faz com a mulher amada. Aprendi a falar pouco de tanto ouvir. E a deslumbrar-me com a sabedoria e o amor daquelas pessoas que freqüentavam a casa de meus pais: Mário Neme, Thales de Andrade, João Chiarini, Leandro Guerrini, Jaçanã Altair, Olênio Veiga, Benedito Dutra Teixeira, Archimedes Dutra, Júlio Bruhns – tantos e tantos outros. E aprendi a sonhar com Nhô Lica, o nosso Fernão Dias caipira, que colhia pedras à beira do rio, como se fossem diamantes.

Comecei a sentir-me privilegiado ao saber que Piracicaba fôra a terceira mais importante cidade de São Paulo. E que tinha sido o “Ateneo”, por nossas escolas e educação, depois tornada a “Atenas Paulista”. E que, pela administração de Paulo de Moraes Barros – nas primeiras décadas do século 20 – se tornara a “Pérola dos Paulistas”, com o “Estadão” apontando-nos como exemplo de administração pública no Brasil. E, com a “Luiz de Queiroz”, modelo de cidade universitária. E a “Florença Brasileira”, por nossas artes – músicos e pintores – e cultura. E a pioneira no serviço de água e energia elétrica. E na industrialização em São Paulo. Piracicaba, também um grito de democracia na Revolução de 1932, quando Paulo de Moraes Barros e Francisco Morato se puseram entre os líderes da reação paulista.

Hoje, quando se discute a mobilidade urbana – ou seja: o caos no trânsito – estamos revelando a profunda ignorância em relação à nossa história. Ora, quem já observou o traçado harmonioso de ruas e quarteirões em nossa área central? Já perceberam que são linhas projetadas, de uma antevisão digna mesmo de visionários: medidas quase exatas, retângulos harmoniosos, esquinas sextavadas como que prevendo, nos tempos das carroças, a chegada dos veículos motorizados? Compare-se a nossa área central com outras cidades de urbanismo central confuso como Campinas, Itu, outras cidades da região. Não foi o acaso, mas a genialidade do Senador Vergueiro e a habilidade do Alferes José Caetano que nos deram a harmonia do perímetro central, seguida, depois, por quase toda a cidade.

Hoje – até mesmo em alguns trabalhos turísticos anteriores da própria Prefeitura – afirma-se que o “Véu da Noiva” – um dos símbolos da nossa terra – é a cascata que cai junto ao Salto. Mas o “Véu da Noiva” está no belo poema “Piracicaba”, de Brazílio Machado Neto, ainda em meados do século 19, poema do qual surgiu o doce epíteto “Noiva da Colina”. E mais: quem sabe que Lydia Rezende foi considerada, pelo escritor Coelho Neto, “modelo da mulher brasileira”? Por não saber quem e o que é a “Noiva”, o bruto, o ignorante e o corrupto querem torná-la prostituta. Na verdade, mais do que violentadores, são gigolôs dela.

Essa ignorância levou-nos a, nos 1980, termo-nos tornado a “Amsterdã Paulista”, paraíso de drogas e de vícios. Seria essa “Amsterdã” o modelo dos corruptos e aventureiros? Ou pretendem, eles, que sejamos a nova Sodoma, uma outra Gomorra. Isso jamais ocorrerá se retomarmos uma corrente cultural e histórica que nos devolva a dignidade e a honra. Pois, hoje, mais do que a honra, o que vale é o lucro. E isso não é Piracicaba. É preciso conhecê-la, para amá-la mais e profundamente. Quem ama cuida. Quem aproveita apenas explora. Bom dia.

2 comentários

  1. wilhe gerdes em 20/09/2013 às 11:47

    …hoje, mais do que a honra, o que vale é o lucro. E isso não é Piracicaba. É preciso conhecê-la, para amá-la mais e profundamente. Quem ama cuida. Quem aproveita apenas explora.

    E QUANTOS EXPLORADORES TEMOS AQUI!!!!!!!

    Passou da hora de darmos UM BICO nesses TUCANOS e naqueles que pensam em manchar a reputação dessa NOIVA, pela qual, sempre fui e serei um eterno apaixonado.

    abs.

  2. Linneu Stipp em 21/09/2013 às 19:55

    Caro Cecilio

    Aqui na capital da provincia, na augusta e magestosa Rua Augusta, algum criou o lema “baixo augusta” e a imprensa (?) adotou.

    Casas Noturnas às duzias, pontos de balada…

    Tenho visto jovenzinhas e jovenzinhos nas filas…

    Será que esses locais são bons, fazem bem à saude dos frequentadores?

    Combater os Vicios, Exaltar as Virtudes, eis o Lema, não é?

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