“Ninguém entende o grande amor que sente…”

BrasãoDesde a sua origem, a cidade humana tinha o formato ovalado, cavernas que se tornaram casas arredondadas e estas, colocadas em círculos. Assim, também com a taba e a oca dos índios. Mais do que simbologia, o aspecto oval da cidade antiga era uma referência ao próprio sentido que os humanos deram à forma de um viver coletivo: útero. Cidades, pois, são úteros dos homens, útero de um povo. Por isso, quando se fala em globalização, pensa-se, até mesmo inconscientemente, num imenso ovo, num globo sem limites, o que é impossível como concepção de vivenda, de lugar de morar. Cidades, quero insistir, são o útero de sua gente. Por isso, quando se expandem desordenadamente, quando crescem sem racionalidade, são como úteros que explodem em abortos sem expectativa, placentas que ficam como testemunho do que não aconteceu.

Piracicaba, neste dia de seu aniversário, pode e deve temer por seu futuro como cidade, pois se tornou um óvulo fecundado artificialmente, produzindo clonagens, criando membros monstruosos, como se a cabeça diminuísse enquanto braços e pernas se alongassem. No entanto, há algo maior do que esse temor, algo mais profundo do que irresponsabilidades e ganâncias administrativas e empresariais: há a alma piracicabana, uma singularidade difícil de ser explicada e, por isso mesmo, entendida.

Ora, não acredito que um adolescente ou uma criança nascida em Piracicaba – ou para cá vinda com o acolhimento secular que damos aos que chegam – consiga sentir a singularidade desta cidade privilegiada, pois o ritmo frenético do cotidiano, o crescimento desordenado, a falta de compreensão de que cidade é um lugar de viver estão transformando esta terra em um pedaço do caos universal. A alma piracicabana está escondida sob os escombros desse imediatismo míope e assustador, já que não vê nada além do umbigo e não consegue, além do presente imediato, inspirar-se no passado e, então, tentar prever um futuro.

Nossos antepassados deixaram-nos a lenda da fuga melancólica de Nossa Senhora dos Prazeres quando se viu trocada por Santo Antônio na veneração de bugres e portugueses da povoação. Na curva do rio e levada pelos anjos, a Senhora dos Prazeres profetizou, indo-se embora à altura da curva do rio, lá onde se instalou a Inhala Seca: “Esta nunca será uma cidade grande.” Para alguns, materialistas e pragmáticos, foi uma praga. Para os que buscam entender a linguagem do mistério, uma benção e uma anunciação: Piracicaba nasceu para ser não uma cidade grande, mas uma grande cidade. E foi. E ainda é. Pois nasceu à beira das maravilhas da natureza, na humildade de sua gente, no convívio de povoadores, negros e índios. E ficou incrustada num recanto aprazível, imitação do Paraíso, que, ainda hoje, se pode descortinar ao se acompanhar a caminhada do rio, o encantamento de um lugar.

A alma de Piracicaba está na nossa história. Se ela não for contada e cantada às nossas crianças e jovens, essa alma continuará escondida pelos escombros de um progresso interesseiro e sem sustentação. Poluição visual, poluição sonora, poluição ambiental, infestação populacional, isso é o banal das cidades médias do interior paulista. E não há razão de se orgulhar do que, aparentando ser progresso, é – ainda que com vantagens materiais – um retrocesso espiritual, moral e cultural. Da mesma forma como uma criança tem o direito a conhecer os seus avós, a saber da história de sua família, de seus ascendentes, tem, também, o direito de conhecer, com riqueza de detalhes, a história do lugar onde nasceu, onde escolheu para morar, para viver, para ser feliz.

Quero insistir – quando me dou conta de ser esta a 54ª. crônica que escrevo sobre o aniversário desta terra amada, 54 anos acompanhando jornalisticamente essa história – que o único sentido de A PROVÍNCIA existir é o de manter viva essa história piracicabana, uma fantástica história. Esta e as novas gerações têm o direito de saber porque Piracicaba foi a Atenas Paulista, o Ateneo, a Florença Brasileira, a Pérola dos Paulistas e, na década de 1950, a mais progressista cidade do Brasil, sem perder a sua alma e sua espiritualidade.

O nosso hino – o “Piracicaba”, de Newton de Mello – corta-nos o coração com a dor dos que, por saudade, sabem que esta “punge e mata”. E que “a sorte é ingrata”, se estamos longe daqui. Mas estamos aqui. Não temos que lamentar exílios ou asilos. Por isso, prefiro, hoje, cantar – ainda que com a mesma emoção, conforme o confessei em palestra no IHGP – um canto do amor de quem fica, de quem está, de quem permanece, de quem aqui vive: “Ninguém entende o grande amor que sente a nossa gente a suspirar por ti…”

Que os céus protejam Piracicaba. E que se realize a profecia da Senhora dos Prazeres: que nossa terra seja, antes de uma cidade grande, uma grande cidade, como sempre foi. Bom dia.

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