Nós, meninos de rua

pictureEntristeço-me ao ouvir pequenos marginais e delinqüentes infanto-juvenis chamados de meninos de rua. Não o são. As ruas é que mudaram, tornando-se desertos de gente, refúgios e covis de marginais. Esquecemo-nos de tudo, de quase tudo. Até de Castro Alves, o insubstituível. Lembrássemos dele, haveríamos de também relembrar: “a praça é do povo como o céu é do condor.” Pode soar prosaico, tolo ou antiquado. Mas é verdadeiro. E as ruas são dos meninos.

Faltam meninos nas ruas, faltam ruas com meninos. Digo-o por minha geração, nós que fomos meninos de ruas, heróis de calçadas e de sarjetas, bandos que atravessavam as cidades como potrinhos indomados. Pés descalços, peitos nus, as ruas eram os nossos lares e estes, lugares de refeições e de dormir. Insisto, repetitivamente, como um mantra: lar nunca foi lugar onde ficar; lares são lugares seguros para onde voltar.

Basta de responsabilizar governo, estruturas, sociedade, estilos de vida pelo caos a que chegamos. E pela quase absoluta falta de destino de crianças e de adolescentes. A culpa é da família. De pais. De pai e mãe. E deixemos de máscaras e de mentiras. Criança é cria. Logo, criatura. E, portanto, fruto da criação. Que, obviamente, supõe criadores biológicos. Portanto, pais são criadores de criaturas, os filhos. E criação, em síntese simples, significa o fim do caos e, assim, o surgimento de alguma forma de ordem. E ordem significa hierarquia.

A tal nova família – engendrada a partir de minha geração – subverteu tudo: colocou o caos no lugar da ordem, rompendo a hierarquia. Pai não é mais pai, mãe não é mais mãe e, portanto, criança deixou de ser criação e criatura. Somos o quê? A resposta, cada vez mais clara e triste, é de uma inutilidade dolorosa. Escolhemos o nada, querendo materialmente tudo.

Mãe e pais somos determinantes, aos filhos, para o bem e para o mal. Há um mistério fantástico na geração de um filho, nossa criação. Ele é nossa matéria e traz, também, uma chama inexplicável, anímica. Pais continuam não no corpo, mas na alma dos filhos. Estes nos sucedem não na mistura do sangue, o nariz do pai, os olhos da mãe. Estamos neles na ordem transcendental, na herança espiritual que lhes transmitimos, que também herdamos. Se isso se perde, não há mais pais e filhos, muito menos família, pois se perdeu o essencial.

A classe média, idiotizada, criou a família de fim de semana. Mulher e marido disputam-se em cansaços, em desgastes, em buscas não sabem mais de quê. Exaurem-se para levar filhos aos shoppings, para entupi-los de hambúrgueres, para exibicionismos estúpidos. Pelos narizes empinados de jovens mulheres com seus ostensivos carrões, já se sabe o conteúdo. A grife é negativa. O ridículo é mais perceptível do que a pobreza.

Ou acreditamos na família que substitui o caos, criando a hierarquia, ou temos que nos render e nos sujeitar à família de bandidos e marginais que, no caos, criam a própria hierarquia. Lembremo-nos da maffia: era a “mamma” que mandava. Maffia era famiglia. E a maffia brasileira está sendo a nova famiglia, enquanto a artificialidade da classe média não constrói nada.

Prendemos as crianças em locais fechados, numa confissão de derrota. Nessas prisões, forjamos pessoas fracas, frágeis, acovardadas. Enquanto isso, a bandidagem conquistou as ruas para os meninos que se apoderam de tudo. Filhos são para o mundo, não para redomas de cristal. Como avô, quero que meus netos sejam – eles, sim – meninos de rua. E que a praça volte a ser do povo. Pois o céu ainda é do condor. Bom dia.

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