Nós, sem Hebe

O primeiro televisor de Piracicaba, no início dos 1950, foi adquirido pelo Clube Coronel Barbosa. A loja pioneira em venda de televisores foi a Mercantil Piracicaba, de Eduardo Fernandes Filho, alto executivo da Refinadora Paulista (Monte Alegre), da família Morganti. Lembro-me com clareza da primeira vez que vi imagens de televisão, na loja de Eduardo Fernandes, do qual meu pai era um dos vendedores, iniciando uma nova carreira em sua vida.

Parecia coisa de mágico, algo inimaginável ou apenas pensado por escritores de ficção e seus personagens de gibi. Foi-me um susto inesquecível, como se uma criança deparasse com um milagre, algo sem explicação. E Hebe Camargo estava lá, naquela telinha. Cantando, rindo, fazendo galhofas, uma jovenzinha morena, de sobrancelhas espessas e de olhar brejeiro. A voz de Hebe encantava as pessoas. E ela era apenas graciosa, diferente, no entanto, pela personalidade.

Confesso e admito: nunca fui telespectador assíduo, de acompanhar novelas, programas. Sempre me faltou paciência para isso. E, também, interesse especial. A televisão, ainda hoje, faz parte de minha vida parcimônia acho que até mesmo exagerada. Para mim, assistir a um bom filme por noite me basta, além de um noticiário rápido já que todos eles, jornais televisivos, se esmeram, cada vez mais, em crimes, tragédias, negativismos. Assim, pois, não posso dizer ter sido um fiel telespectador de Hebe Camargo. Mas não resisti a vê-la muitas vezes, diferentemente do que faço com Silvio Santos, Gugu, Faustão, Ratinho e outros, que ignoro. Aliás, passei a fazer questão de me incluir entre os pouquíssimos brasileiros que nunca – e nunca mesmo! – assistiu a um único programa de Silvio Santos.

Com Hebe Camargo, no entanto, era diferente. Se não sei dizer em quais canais ela trabalhou ao longo dos seus 60 anos de carreira, quais os horários de seus programas – estou, no entanto, entre os que não resistiam a seu magnetismo quando, zapeando (é assim que se fala?), eu a via na tela da tevê. Era como se – mesmo vendo-a tão esporadicamente – eu a tivesse como minha amiga. Ela fazia parte de algo de que também eu era parte, essa a minha impressão. Com sua morte, descobri e entendi: Hebe Camargo foi, era e continuará sendo parte poderosíssima da personalidade e do caráter do povo brasileiro. Ele era nós.

Uma das manifestações mais comuns que ouvi, lamento a sua morte, foi: “Hebe é insubstituível”. Deveríamos refletir mais profundamente sobre isso. Hebe, antes de mais nada, é verdadeiramente insubstituível porque todo ser humano é insubstituível. Ora, substituir é por algo ou alguém em lugar de outro alguém ou coisa. Pode-se fazê-lo em se tratando de objetos, de funções, de atividades. Substitui-se um mecânico, por exemplo, por outro. Mas ninguém substitui uma pessoa. Cada um de nós é insubstituível. Nossas impressões digitais – inacreditavelmente diferentes entre bilhões de pessoas – o confirmam. Daí, então, o respeito que deveríamos preservar em relação à pessoa humana e sua dignidade. Qualquer pessoa.

Hebe será, sim e portanto, insubstituível. Difícil imaginar o Brasil sem ela, o nosso cotidiano sem Hebe. Ela fez parte de nossa casa como cheiro de café, cheiro de feijão, vaso de flor na janela da cozinha. Tornou-se, pois, a mulher memorável. A que ficou na memória para sempre. Bom dia.

Deixe um comentário