O cobrador do bonde

picture (16)Confesso não mais saber do Augusto Colazante, desejando ele esteja lépido e pimpão conforme a última vez em que o encontrei, há uns cinco anos. Quando o vi, um octogenário ainda vigoro, tive receio de ele lembrar-se de mim pulando do estribo do bonde, a molecada correndo de um para outro lado, fugindo para não pagar. O Augusto era um dos cobradores, depois ficou fiscal. Mas era como se os bondes fossem dele.

É o que, ainda hoje, me admira ao me encontrar com antigos funcionários da Prefeitura: eles se consideravam os verdadeiros donos de Piracicaba, zeladores e guardiães. Tinham orgulho do que faziam. E se sentiam absolutamente compromissados com o serviço público, mesmo nos tempos difíceis em que a Prefeitura atrasava o pagamento do funcionalismo por dois, três, quatro meses.

O bonde faz parte també de minha vida. De minha alma. Nasci na esquina onde ele virava, vindo e voltando, ao lado da antiga Matriz, a atual Catedral. Aquele “tlém-tlém” parece-me, ainda hoje, música aos ouvidos. E à alma. Meu pai me dizia que, para eu dormir, era preciso levar-me passear de bonde, mas não em qualquer deles. Tinha que ser no que fazia o trecho do centro à Vila Rezende, atravessando a ponte sobre o rio. E é incrível como sinto, ainda agora, o vento batendo-me nos cabelos, o cheiro do rio entrando-me nos pulmões.

Do Augusto Colazante, lembro-me nas estrepolias de quando tomávamos o bonde até à Paulista. Era essa a expressão: “tomar o bonde.” Na subida da Boa Morte, o bonde ia mais devagar, rangendo nos trilhos, pouco antes de chegar ao então Colégio Assunção. Então, o Augusto aproveitava-se para correr atrás da molecada, tentando cobrar. Não passava de faz-de-conta. Ele sabia não termos dinheiro. Mas “noblesse oblige”.

E “tomar bonde” para ver a Annunciata? Ela era uma das mais belas mulheres de Piracicaba. Morava na rua José Pinto de Almeida e, quase ao lado de sua casa, o bonde fazia a curva para ir até a Agronomia. Motorneiros, rapazes, adolescentes, cobradores, todos ficávamos assanhados. O bonde, antes de chegar à casa dela, fazia “tlém-tlém”. Annunciata, danada de mulher, aparecia de “negligée” como se nada estivesse acontecendo. Ver Annunciata de “negligée” era uma das grandes aventuras da vida. Do estribo do bonde.

Da última vez em que estive com o Augusto, a alma destilava-lhe nostalgia. E quem não a tem? E quem não a tem? Pois, mais do que de um tempo, nostalgia é como que saudade de um lugar. Hoje, a nostalgia é universal: saudade de um mundo que deixou de existir, substituído por campos de batalhas de guerras pessoais sem nobreza. E lá foi o Augusto, funcionário aposentado, lembrando de Gonzaga, Samuel Neves, Luciano, Salgot, contando histórias do bonde, da cidade, dos tempos.

Augusto contou que, certa vez, foi à procura de Luciano, que vistoriava uma das avenidas em construção. Procura que procura, cadê Luciano? Ora, ele tinha que estar por lá. Pois o carro particular do prefeito estava estacionado perto da obra. Mas cadê? Então, o chefe de obras segredou: “Ele deixa o carro para o pessoal pensar que ele está aqui. Mas o filho dele já o levou de volta à Prefeitura faz tempo.”

Eram tempos em que o olho do patrão engordava o gado. Nestes outros tempos e sem bondes, é o gado que engorda o olho do patrão. Bom dia.

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