O confiteor do “Estadão”

ConfiteorA chamada “grande imprensa” brasileira – incluindo emissoras de televisão – tem sido alvo de fortes reações por força de seu comportamento na campanha eleitoral que ora se encerra. Ficou evidente, embora não declarado, a sua tendência em favor da candidatura de José Serra e do PSDB em geral. A campanha contra Lula atingiu limites comparáveis apenas ao que o “Estadão” fizera contra Getúlio Vargas, sendo porta-voz da então UDN, num processo esmagador que levou Vargas ao suicídio.

A pressão popular intensificou-se, nos últimos meses, através da internet, com protestos que se avolumaram a ponto de se criarem novas siglas que passaram ao cotidiano da população: PIG (Partido da Imprensa Golpista) e GAFE (Globo, Abril, Folha e Estado de São Paulo). No avolumar-se dos ruídos, os próprios veículos começaram a denunciar ações que visariam a tolher a liberdade da imprensa, o que não aconteceu, já que as censuras ocorridas foram fruto do Poder Judiciário em ações pontuais. No entanto, a discussão se acentuou: há limites para essa liberdade?

O eventual leitor que acompanha este veterano jornalista sabe de um ponto de vista que defendi ao longo da vida: a imprensa tem o direito e até mesmo o dever de escolher seus candidatos, de tomar e de ser parte. Isso significa que a imprensa imparcial, além de ser mito, pode ser apenas um subterfúgio para se abster de opinar, de discutir, de tomar posições. Todos os grandes jornais do mundo sempre revelaram, a seus leitores, sua orientação ideológica, suas preferências partidárias, suas escolhas. E, exercendo-as com honestidade, não perderam a credibilidade e o respeito por causa disso. Pois estes, respeito e credibilidade, se perdem quando, mesmo declarando posicionamentos, o leitor percebe haver desonestidade ou má fé nas linhas editoriais.

Agora, o mais do que secular “O Estado de São Paulo”, o “Estadão”, fez o confiteor que confirmou o que seus leitores já tinham como certo: seu apoio ao candidato José Serra. Mais do que isso, na verdade, seu apoio a uma ordem econômica, hoje em decadência, conhecida como neoliberalismo. O “Estadão”, com sua declaração de escolha, assume uma posição honesta e torna explícito o que estava apenas implícito. Seus leitores – que já sabiam – agora tem uma confirmação: o “Estadão” é defensor da candidatura de José Serra e, portanto, oposição ao governo Lula e à candidata Dilma Roussef. As cartas passam a estar abertas, o jogo foi posto honestamente na mesa.

Se há que se louvar a atitude honesta do jornal da família Mesquita, essa definição passa a criar algumas dificuldades que apenas o próprio “Estadão” terá que enfrentar e tentar superar. Até onde esse engajamento político-ideológico não comprometerá o sagrado do verdadeiro jornalismo, que é a busca da verdade, a informação correta, honesta, apesar de opiniões que podem ser contrárias? Um jornal, na verdade, tem seu espaço próprio de ação, que é o da oposição a todas as formas de poder, como organismo crítico, vivo e atento aos interesses maiores da população. Quando adere ao poder, a imprensa com este se confunde e não há como não ser contaminada, o que nos leva a ter sempre em mente a célebre frase de Lord Acton, importante ministro inglês: “O poder corrompe; o poder absoluto corrompe absolutamente.”

O confíteor do “Estadão” torna-se, por um lado, um alívio aos leitores que, agora, tem balizas e referenciais para entender muitas das críticas, opiniões e avaliações do jornal dos Mesquita. No entanto, o desafio do “Estadão” se torna ainda maior, pois os cuidados para defender uma candidatura sem denegrir outras, para aliar-se a um partido sem prejudicar outros passam a ser mais espinhosos e serão ainda mais cobrados. Ao leitor, cabe ser juiz do velho “Estadão”, avaliando essa linha tênue que separa uma definição de engajamento político-partidário com a análise isenta, honesta e verdadeiramente crítica dos adversários. É essa a espinhosa, difícil, sacrificada, desafiadora missão da imprensa: ser parte e, ao mesmo tempo, ser honestamente isenta.

Ler, pois, hoje, o “Estadão” é saber que há uma linha editorial visando a fortalecer a candidatura de José Serra. Foi uma confissão honesta. O leitor terá agora – ao contrário do que ocorre com outros veículos que fingem uma neutralidade inexistente – como entender o “Estadão”. Se perceber o esforço de uma oposição honesta, continuará lendo; se não o perceber, deixará de ler. Ou, então, fará como este veterano jornalista, na maioria das vezes, tem feito como leitor do “Estadão” desde a infância: saber para onde o jornal dos Mesquita vai para, então, ir em direção contrária. Já se provou muitas vezes que nem tudo que serve ao “Estadão” serve ao Brasil. Um fenômeno que, aliás, se repete com as Organizações Globo. Bom dia.

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