O dramático livre arbítrio

Livre arbítrioDeixei-me seduzir por Santo Agostinho, como filósofo, já na velhice. Espanta-me constatar o poder de sua inteligência ao pensar o mundo, como o fez, ainda nos primeiros séculos do Cristianismo, há cerca de 1.700 anos. Aliás, espanto-me com os que o antecederam, gregos e árabes, muitos séculos também antes de Cristo. A certeza que me fica: quando mais o homem avança na ciência e na tecnologia, menos pensa. E, portanto, menos reflete.

Ser-me-á desagradável enlouquecer de tanto pensar e de querer aprender quando a idade já se me avançou. Mas é o mais realizador e plenificante ato humano: pensar, refletir, completar. No entanto, dói. E complica. A questão do livre arbítrio do homem, por exemplo, é angustiante. Pois há momentos, a maioria deles, em que meu arbítrio pessoal e livre me parece possível apenas na vontade e no pensamento e no desejo. Pois esbarra na ação, nos limites da liberdade. E, então, tento socorrer-me de Agostinho de Hipona que tem um livro milenar exatamente com esse título, “Livre Arbítrio”. Boquiabro, mas a questão não se me resolve.

Recordo-me do que me aconteceu, há alguns anos, algo de que me envergonhei profundamente. Foi tudo muito simples, acho que até corriqueiro. No entanto, atingia-me a dignidade de ser humano inteligente, livre, consciente. Vimo-nos – logo à entrada do apartamento de uma das minhas filhas amadas, em São Paulo – o gato e eu. Admito e reconheço: era um gato lindo, da raça angorá. E, ao lado dele, estava um outro gato, todo belo, esplêndido, um outro formidável gato da mesma raça, angorá. Eles são lindos. Mas eu tinha medo de gatos, medo pânico, trauma que me deixa, ainda, seqüelas.

Comecei a tremer. Os dois gatos eram dóceis, inofensivos. E, diante de meus padrões de ordem estética, belíssimos. E limpos, bem cuidados – se fosse para apreciá-los sob o prisma da higiene. E pacíficos, se eu tivesse que confrontá-los com a ferocidade de cães que vejo por aí. Mas não tenho medo de cães. Nem de tigres ou de leões ou de bandidos ou de políticos. Tinha medo de gatos. E minha razão – que me fala, também, de livre arbítrio – não conseguia enfrentar esse medo-pânico. Quase sempre – em questões racionais e nas dogmáticas – sou derrotado quando chamado a decidir a partir de meu arbítrio próprio, que deveria ser livre. Quando decido por ele, sou condenado. E, quando não decido, sou cobrado.

Um gato é um gato é um gato é um gato. Como a rosa da Gertrud Stein, uma rosa é uma rosa é uma rosa é uma rosa. Besteira. Gato é um gato. Rosa é uma rosa. E meu medo é meu medo. Senhor de meu próprio arbítrio – que teólogos teóricos, mas interessados em algum poder, dizem existir – não consegui, daquela vez, sequer decidir-me a vencer um gato. E meu espírito também quase sempre perde quando, no corpo, explodem-me sentimentos exacerbados. Regras morais, leis, papas, deuses, religiões, culturas, filósofos, moralistas, teólogos, políticos – todos os que se movimentam em busca ou em torno de algum poder – querem minha rendição. E a arma deles – cínica e sádica – sou eu mesmo, sou aquilo que eles inventaram: “você tem o livre arbítrio, você é que tem de decidir.” E me impõem normas, regras e dogmas que me impedem de discuti-las. Por exemplo: eu tenho, por meu livre arbítrio, a responsabilidade de, como Adão, escolher entre a sedução de Eva ou de resistir. Mas não me é dado o direito, por esse mesmo universo moral, de discordar de dogmas, de leis e de jurisprudências, agindo em contrário do que dizem. Se aceito e respeito a lei, por mais infame e injusta ela seja, sou cidadão respeitável; se a desrespeito, torno-me infrator. Se aceito dogmas de fé, sou crente e fiel; se discordo e rompo, sou pecador ou herege. E lá vem Marx, de novo, na conversa: “a cultura dominante é a da classe dominante”. Ou a amarga constatação de que a história – aquela que se conta e que se vive – foi e é contada pelos vencedores.

Só é senhor do livre arbítrio quem tem o controle do poder. De qualquer poder. E de forma absoluta, sem ter que dar satisfações. Livre arbítrio é coisa de quem arbitra, do arbitrário, de quem tem o domínio da arbitrariedade. Os demais são dependentes. Ora, bolas e que se danem os filósofos de fancaria: se não consigo controlar-me diante de um inofensivo gato – o que revela minha dependência – tenho livre arbítrio para escolher o quê, num mundo de leis ditatoriais massacrantes? Nas próprias eleições, se sou obrigado a votar, de que me vale o livre arbítrio, que minha consciência convida a não mais votar?

É curioso. Nos 1970, dizíamos, na juventude: “Parem o mundo que eu quero descer.” E eu já desci e não sabia. Meu livre arbítrio exige que eu continue rebelde diante de tanta indignidade. Tenho, pois, que ser digno dele. E bom dia.

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