O erro e o equívoco

Esse texto foi publicado em outubro de 1988 no semanário impresso A Província. Recuperamos para lembrar os 30 anos de atuação em Piracicaba.

Posso entender, mas confesso que não compreendo o medo que os jovens têm de se emocionar, de revelar sentimentos e até mesmo de tê-los. Entendo, sim, que está havendo um massacre, uma luta impiedosa para que as pessoas sobrevivam, quando o único sentido da vida está apenas em viver.

Entendo isso, pois vejo ao meu redor as pessoas atropelando-se, competindo, tornando-se adversárias, quando não inimigas umas das outras. A competição é formidável quando há, antes dela, o sentido da solidariedade, do respeito humano.

Competir apenas para conseguir o sucesso, isso é tolice. Pois o sucesso não leva a nada, a não ser à solidão da pessoa, que não consegue conviver nem consigo mesma. Entendo sim essa tragédia humana dos jovens, que roubou até mesmo o direito de sonhar.

No entanto, não compreendo. E não compreendo apenas porque o sonho está acima de tudo, sem que haja força humana, política, econômica ou social que consiga matá-lo.

Tenho medo de pensar que os jovens estão com tanto medo, que se tornaram de tal forma inseguros e desiludidos que estão até com medo de sonhar. Assim, da mesma forma como entendo que eles estão massacrados e esmagados, não compreendo que fiquem passivos, apáticos e submissos diante de um momento equivocado de nossa história.

Pois estamosvivendo um equivoco, a vida não é isso que aí está. Costumo, aliás, insistir na diferença essencial que há entre erro e equivoco. O erro é aquilo que fazemos conscientemente, passível de revisão, portanto. O equívoco é terrível, pois trata de permancecer em uma verdade que não existe, de estar em algo que não é verdadeiro.

As pessoas erram, todos erramos. Voltar ou não atrás, esse é outro problema, outra questão. O equívoco, no entanto, permite que se caminhem como se estivessern fazendo aquilo que seria certo fazer. A intuição diz que algo está mal colocado, mas a consciência não acusa.

O equívoco é mais terrível do que o erro. Para mim, estamos vivendo tempo de equívocos, de terríveis equívocos. As pessoas caminham para o matadouro, pensando que estão indo em direçào à felicidade ou ao prazer. Viver é mais simples do que sobreviver. Para viver, não há necessidade de muito. Mas, para sobreviver, é preciso muito.

Penso nisso por causa dos jovens, e, especialmente, por causa dc uma jovenzinha que conheci há alguns dias. Universitária, estaria concluindo o último ano de Medicina, Definiria a sua carreiralido fosse a greve que não sensibiliza o sr. Governador. Aquela moça brilhante, bem informada, culta, sensível — foi um dos testemunhos rnais vivos que encontrei dessa melancolia que envolve uma geração que, mesmo antes de ir à luta, já se sente derrotada.

Aquela moça se recusava a sonhar. Estava derrotada antes mesmo de formar-se médica, de tornar-se profissional da Medicina. Definira a sua carreira, o seu sentido de vida: estava encontrando um simples emprego, com salário razoável, recusando-se a qualquer atividade mais idealista no exercicio da Medicina. “Não adianta. Já sei que nada farei como médica se o povo não tem condições de se alimentar, de adquirir medicamentos, de viver uma vida digna e decente.” disse-me ela, justificando-me de maneira até mesmo agressiva.

Não admitiu discussões, nem questionamentos. Já decidira por um emprego sem maiores responsabilidade e recusava-se a alimentar o sonho. Para sobreviver, renunciara a tudo de si mesma. E poderia viver, pois a vida é simples para quem não tem medo de viver.

É isso que me assusta: os jovens me parecem corn medo de viver com medo de amar, com medo de acreditar, com medo de sonhar. Como se estivessem tão machucados que passaram a ter a certeza de que não resistiriam a mais decepções, tristezas, deslealdades.

Estão com medo de ousar, com medo de arriscar. E a vida tem riscos, buscas, ousadias, caminhadas, quedas, conquistas. O fascínio da vida está na insegurança, na consciência de que tudo é fátuo, um tênue fio de linha que se rompe a qualquer instância. É o hoje, não é o amanhã. A juventude está pensando tanto no amanhã que morreu para o hoje. É trágico. Bom dia.

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