O homem fiel

Sinto-me confuso quando, saindo às ruas, vejo escrito, em vidros de automóveis, que Deus é fiel. Fiel a quê? Fiel a quem? No fundo, no fundo, consolo-me em acreditar que Deus é fiel a Si mesmo e, portanto, à Sua obra. Mesmo assim, para ser franco, fico em dúvida. Pois, quando a obra se deteriora – e refiro-me à criação do Homem – o que fica é a tristeza. Para mim, mais do que ser fiel ao homem, Deus está triste.

Ora, fé, penso eu, implica crença e compromisso. E, portanto, também implica confiança. Se, num relacionamento – seja entre humanos, seja com o divino – alguém crê, acredita, essa crença tem que ser suficientemente sólida e honesta para inspirar confiança e, a partir disso, levar ao compromisso. Mais ainda: é preciso acreditar intelectualmente e com o coração. É, talvez, o grande desafio, pois coração e razão vivem em conflitos.

Como ter fé sem crença? E como haver crença sem compromisso? E como poderiam sobreviver fé, crença e compromisso se não houver confiança? Ora, ninguém pode ser fiel a quem ou a quê não inspire confiança, drama de nossos tempos de tantos relativismos e precariedades. Por isso, há que se compadecer de nossos jovens que, especialmente no amor, se atormentam por dúvidas de tempos velozes e de realidades descartáveis. Como amar, como acreditar, confiar se, de repente, não mais existir o que se amou? Tanto se relativizou tudo que se banalizou também o absoluto. Profanou-se, pois, o sagrado. Logo, fé em quê? Fé em quem?

A reflexão, faço-a por estar pensando homens de fé, de quem sinto doce inveja. São padres e leigos idosos, valentes, lúcidos, que conheço desde a juventude e que nos marcavam – a nós, moços – de maneira silenciosa. Eles proclamavam a sua fé com a simples presença, com o testemunho de vida. E erra irritante constatar tal convicção. Fé em quem, em quem? Suas vidas eram a resposta: fé em Deus, em Jesus Cristo, a partir da Igreja Católica. Era assustador. E de dar inveja.

Como acreditar por toda uma vida? Como crer no que se não entende? Nenhuma crença, penso eu, sobrevive apenas pela razão. Quero acreditar em que, mais do que pensar com a razão, o ser humano pensa com o coração e, portanto, sente. É o coração do homem que acolhe o divino e o sagrado. É a alma humana que capta um mundo já plenificado desde a sua construção. Diante das maravilhas da Criação, nada mais há a fazer senão render graças, ser parte digna e honesta desta fantástica sinfonia universal.

O homem não apenas existe: o homem é. Existir também o cadáver existe. E não pensa. A pedra também existe. Sem pensar. Agostinho, antes de Descartes, bordou intelectualmente a mágica dimensão do ser humano. A razão é o mais poderoso instrumental para o ser humano ser verdadeiramente humano. Se ouvir o coração, a razão permite-nos opções totalizantes, definitivas: nem bicho, nem anjo, apenas humano.

Sem acreditar com o coração, não há fé que permaneça. O homem é tocado pela chispa e, a partir dela, passa a crer, a fé interior. E, em seguida, vive aquilo em que acreditou, na dimensão externa da fé. Crer no coração e, intelectualmente, entender aquilo em que se acreditou. E, então, viver, assumidamente, compromissadamente, confiantemente. Duas perguntas bastam: em que eu creio, de que modo eu creio? Quem souber responder é uma pessoa de fé.

Essa questão está sendo posta, atualmente, pela Ciência. Que conclui: sem o sagrado, o homem destruirá o mundo. Bom dia.

Deixe um comentário