O melhor de Alceu

picture (40)Propositalmente, aguardei as primeiras manifestações a respeito da morte de Alceu Marozzi Righetto. Pelo que li e ouvi, não identifiquei o Alceu verdadeiro.

Mais do que a vida e o mundo, foi a política que nos separou, uma amizade de infância, longa jornada pela adolescência e mocidade. Foi preciso viver muito, muitíssimo, para saber que política – sendo domínio do poder e das ambições descontroladas, dos apetites sem freios – não soma, a não ser para quem dela usufrui na loucura da ganância ilimitada. Política, não somando, subtrai, divide e, então, multiplica discórdias, inimizades, desavenças e tristezas. A multiplicação, em política, se dá apenas aos interesses pessoais dos profissionais. E Piracicaba tem sido testemunha disso.

O melhor de Alceu fomos nós, velhos amigos, que conhecemos. Éramos uma turma inseparável, ainda com calças curtas. Ao início do Colégio Dom Bosco, lá estávamos como soldadinhos, vestindo fardas de pano e cor cáqui, o glorioso uniforme do batalhão branco para desfilar. Mais do que amigos, formávamos uma fraternidade, como se um cordão umbilical invisível nos unisse em e por todas as horas. O lema dos Três Mosquteiros – “um por todos, todos por um” – era, também, o nosso lema, não explicitado, mas vivido, vivenciado, algo que nos marcava na carne e na alma.

A casa de meus pais, sendo central, era como que o ponto de encontro, tanto para estudos, para as inesquecíveis serestas que, desde a adolescência, fazíamos às nossas namoradinhas: e eram as Maria Helena Branca e Preta, outra Maria Helena, a Mariana, a Marilu, a Berenice, a Marina, a Irene, a Lurdinha, tantas outras para quem levávamos rosas roubadas aos quintais da cidade, postas às janelas ao som de violões. O velho José Carlos Sabino, no acordeon; eu, no violão; às vezes, meu pai, ao violino. E nosso coral: Rodolfo Gatti, Fernando Pacheco, Alceu Righetto, Antônio Amaral Mello, José Carlos Brasil, Jaime Cardoso, Mathias Vitti, Flávio Pecorari, Edy Piedade, Paulinho Carneiro, Mário Terra, tantos outros, um grupo que aumentava a cada noitada, iniciada no Bar Giocondo e concluída num dos botecos da periferia, onde quer que o Tanaka estivesse.

Alceu era de nossa turma, o centro-avante da equipe, o goleador, aproveitando os lançamentos primorosos de Pachequinho. O topete caído na testa, o belo rosto com seus faiscantes olhos verde-azulados, ele era o alvo preferencial das brincadeiras, e, também, o inventor e criador de muitas outras. O melhor de Alceu Righetto estava na sua criatividade, na sua paixão pela música, na inspiração de seus tios Alcides e Otávio Righetto, vozes clássicas, tenor e barítono, do que havia de melhor na ópera. Ninguém assobiava com a fluidez e a desenvoltura de Alceu, assobios que pareciam trinados. E nenhum de nós era capaz de, como ele, identificar os instrumentos musicais das orquestras. Alceu, na verdade, nasceu para a arte, mas para uma arte descompromissada, a arte pela arte, sem regras e sem técnica, como se, nas décadas de 1950/60, pudesse haver saltimbancos ou trovadores.

Alceu, casando-se com Arlete, em Araras; Alceu, tremendo de emoção e de alegria, ao nascimento de Vanessa; Alceu perdido nas lutas políticas que, na verdade, nunca foram seu terreno; Alceu, aprisionado pela educação formal da qual se tornara especialista. Alceu e eu brigando e xingando-nos por causa de Palmeiras e de Corinthians; com Pachequinho, por causa do São Paulo. E todos nós, seus amigos, cada qual à sua maneira, indo-se pela vida, tendo seu espaço no mundo, uns aos trancos e barrancos, outros de maneira organizada, mas com o cordão umbilical íntegro, na amizade que perdurou e que ficou, mesmo com conflitos, até quando a morte começou a nos separar, uns indo-se, outros à espera da ida.

O melhor de Alceu Righetto não está, nunca esteve no homem público que ele quis ser, que ele foi. O melhor de Alceu esteve sempre nos seus devaneios, no seu olhar para o mundo, um olhar tão imaginativo que nunca se soube se o que ele via e enxergava eram visões, se era a realidade. Minhas férias com Alceu em Pederneiras, em Bauru; nossos ensaios de serestas; nossas confidências de adolescentes e nossos sonhos de moços – essa saudade e essas lembranças ficaram antes de Alceu ter-se ido. Mas há tristezas de um tempo tolo de política estéril, inútil e desagregadora. O melhor de nós mesmos, no entanto, é maior do que esse submundo político. Nossas infância, adolescência e mocidade permanecem vivas na lembrança e na saudade. Da maturidade, muito há para esquecer. E para lamentar. Bom dia.

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