O menino e a biblioteca

BibliotecaAcompanhei o desespero e a angústia de alguns intelectuais de Piracicaba quando, ao final da vida, tinham que dar destino às suas bibliotecas. De maneira especial, especialíssima, vi a verdadeira agonia que João Chiarini viveu, já ao fim da vida, por não saber que destino dar a seus livros. E vi o mesmo desespero em Flávio de Toledo Piza, em Rocha Netto. Eles sabiam que herdeiros, se os tivessem, não preservariam aquele patrimônio formidável. Já o professor emérito da ESALQ, Salvador de Toledo Piza Jr., resolveu a situação de maneira mais simples: doou sua biblioteca à própria escola, incluindo, acho eu, uma preciosíssima edição da Vulgata, da Bíblia, que ele conservava com carinho, apesar de dizer-se ateu.

Foi Antônio Henrique Cocenza quem conseguiu solucionar, para João Chiarini, o seu acervo, adquirido pela UNIMEP. Antes, muito antes disso, eu recolhera, no andar superior de O DIÁRIO, toda aquela preciosidade, criando, de comum acordo com Chiarini, uma biblioteca que ficaria à disposição do povo. Foi um espaço que levou o nome Biblioteca Ada Dedini Ometto, homenagem também a Dovílio Ometto que, sensibilizado, ordenou se montassem estantes, que se fizesse o transporte, que se organizasse tudo. Mas, depois que vendi O DIÁRIO, a biblioteca de Chiarini se tornou ambulante, levada de um para outro lugar, até que o Cocenza encontrou a solução unimepiana e graças à boa vontade de Almir de Souza Maia.

Nos últimos tempos de vida do nosso notável prof. Flávio de Toledo Piza, um dos mais cultos intelectuais piracicabanos, vivi, com ele, a angústia do destino, com a morte já anunciada, de sua biblioteca, com volumes valiosíssimos especialmente em Literatura. A solução ele mesmo a deu, determinando, como última vontade, que seus herdeiros, na pessoa do sobrinho e médico dr.João Carlos Japur, a doasse ao IHGP. A mim, foram-me destinados alguns volumes de arte, de folclore, de culinária, que, ainda hoje, guardo e conservo com carinho especial.

A imensa biblioteca de Delfim da Rocha Netto – a maior que se conhecia, especializada em esportes e onde toda a história do E.C.XV de Novembro estava reunida – dou-me o orgulho de ter conseguido, graças à sensibilidade também de Gustavo Alvim, que a UNIMEP também a adotasse. Rocha Netto, já doente, vivia essa agonia de não saber o destino daquela riqueza à qual ele dedicara toda a sua vida. A Unicamp estava interessada, mas nem Rocha Netto queria que tal patrimônio deixasse Piracicaba e nem eu, como amigo dele e piracicabano, iria me perdoar se isso acontecesse. Finalmente, lá está, no Centro Martha Watts, todo aquele riquíssimo acervo, patrimônio esportivo único. Mas, de Rocha Netto, cobrei um preço: pedi-lhe me desse a sua coleção da revista A Scena Muda, de cinema, de atrizes e atores, um tesouro que guardo comigo ainda hoje.

Pois bem. Essa angústia já me alcança também. Para quem deixar, o que será, o que fazer de minha biblioteca, agora nesse mundo digital onde o próprio livro está ameaçado? Minha mulher, com carinho comovedor, está reorganizando-a, descubro verdadeiras pérolas que colhi ao longo da vida, cerca de 12 mil. Mas o que será dela, do papel, do livro impresso? Um dos meus netos, que passou algumas semanas de suas férias comigo, olhava aquelas estantes todas, os milhares de livros, ficava em silêncio. Um dia lhe perguntei: “Você não gostaria de herdar esses livros, cuidar deles, preservá-los?” Tímida e respeitosamente, ele fez um sinal negativo com a cabeça. E me explicou: “Vô. Tudo isso já pode ser colocado num computador e, logo, logo, num telefone celular. Para que ocupar tanto espaço, para que ter uma biblioteca de livros de papel, se a gente pode levar tudo isso numa maquininha só, uma biblioteca eletrônica?”

Doeu-me o coração, a certeza de estar perdendo uma das razões de minha vida. E a certeza, também, de estar na hora de eu acender velas e fazer o réquiem de minha biblioteca. Mas resisto. Vivo o universo eletrônico, tenho um jornal eletrônico. Meus livros, porém, terão carinho e amor até o meu último suspiro. Depois…Sei lá eu. E não quero saber. Bom dia.

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