O Nero que veio do Texas

pictureHá alguns anos, em entrevista a jornalistas brasileiros, a escritora e pensadora estadunidente, Susan Sontag – uma das vozes mais lúcidas e, por isso mesmo, polêmicas de seu tempo – articulou outra de sua ácidas críticas às elites dos EUA. Sontag mostrou-se alarmada com o número de “gente louca” agindo nos Estados Unidos e também entre os brasileiros. Mas reconheceu: “Aqui (no Brasil), pelo menos, eles não estão dirigindo o país.”

Foi esse o medo que se espalhou pelo mundo ou, pelo menos, entre as multidões lúcidas que ainda existiam, já não se sabe mais se sobreviveram: o medo de que a loucura, dominando o presidente da maior nação do mundo, levasse-o à obsessão de incendiar o planeta. Sontag, Gore Vidal, outros intelectuais de grande porte dos Estados Unidos e de outras nações, foram vozes proféticas alertando contra o Armagedon apocalíptico anunciado por George Bush, o filho. A luta contra o terrorismo serviu de pretexto insuportável para o expansionismo proposto pelo governo dos Estados Unidos. O ataque a Nova York naquele 11 de setembro – condenável por todos os títulos – se transformou num permanente grito de guerra que perdeu o senso de limites. O terrorismo deu o pretexto que faltava para ânsia expansionista e, ao mesmo tempo, para os apetites insaciáveis diante do petróleo. Foi assim no Afeganistão, onde nem os tolos deixaram de avaliar a riqueza petrolífera da região e do Mar Cáspio, por cuja posse lutam russos e estadunidenses.

Ainda agora, o Iraque. Amanhã, poderá ser o Irã. E, como já profetizaram lideranças árabes, Bush estaria “abrindo as portas do inferno”, como Nero o fez ao incendiar Roma, como Hitler libertou todos os demônios em sua loucura expansionista e fomentadora de ódios étnicos. Os Estados Unidos perderam a credibilidade para falar em democracia, tanto se expuseram ao mundo a hipocrisia e a nudez de seus governantes e empresas. Foram eles que armaram Bin Laden, Sadam Hussein, militares de todo o mundo para a supressão de direitos humanos, especialmente na América Latina e África. São eles que mentiram escandalosamente a respeito das famigeradas leis do mercado, que valeram apenas para eles e que, agora, começaram a ruir. E são eles que boicotam toda e qualquer iniciativa de paz e de humanização do mundo. São eles que, a pretexto de combater armas químicas, mantêm ativos depósitos imensos de napalm, gás sarin, como há alguns anos se descobriu quando se pensou que um outro maluco tivesse invadido as instalações mortíferas.

Não à toa, os Estados Unidos têm a águia como símbolo, a mais altiva das aves, representativa de guerra, de poder, de divindade e, também, da rapina. Todos os impérios e imperadores tomaram a águia como símbolo: Roma, os impérios francês, alemão, austríaco e, também, os Estados Unidos. É essa certeza do vôo a alturas ilimitadas que permite a homens, como Mr.Bush Jr., exceder todos os limites, mostrando que a civilização ocidental está muito longe de criar um mundo possível de coabitação pacífica. Quando Roma viu o império ruir, acreditava-se que a “Pax Romana” – imposta pelas armas, pela violência, pela guerra – viesse a ser substituída pela “Pax Christiana”, um sonho universal. Não aconteceu. Como se o mundo fosse uma Roma para se incendiar, um novo Nero veio do Texas e, sobre todas as nações, tentou impor a “Pax Texana”, muito pior do que a “Pax Americana” que já se conhecia.

Sontag denunciou os loucos no poder. Eles queriam novamente abrir as “portas do inferno”. E parece que conseguiram, fazendo ruir Wall Street e todo um modelo econômico que trouxe mais injustiças, fome e miséria aos povos. Quem viver verá. Bom dia.

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