O Papa, camisinha, caridade

PapaAumenta-me cada vez mais o sentimento de ter-me tornado objeto de manipulação da grande maioria dos órgãos de comunicação e das agências internacionais de notícia. Sim, estamos na era da comunicação, o que deveria ser um dos mais propícios momentos da humanidade para seu desenvolvimento moral e espiritual. O ser humano não é apenas o “homo aeconomicus”, mas esse mistério que se abre a todas as possibilidades, das mais generosas às mais cruéis.

Meios de comunicação têm sua filosofia editorial própria, que revela a sua própria maneira de ser diante da vida e do mundo. Quanto, pois, maior for sua dependência a grupos econômicos, escolas políticas ou ideológicas, mais a interpretação da notícia e da informação se torna maleável. Voltamos à velha questão do copo com água até sua metade. Para alguns, ele estará “meio cheio”. Para outros, “meio vazio”. E, às vezes, sequer há má fé ou tendência na observação. Trata-se, digamos, do ponto de vista. E isso ocorre, também, no jornalismo, com o agravante de haver objetivos tendenciosos em cada interpretação.

A pressa com que as agências de notícias noticiaram que o “Papa Bento XVI admitiu o uso da camisinha em situações especiais” foi melancólica e trouxe, como conseqüência imediata, conclusões erradas, para não se dizer que apenas falaciosas. Ora, o Papa – e, portanto, a Igreja – não mudou em nada o seu posicionamento moral em relação ao uso da camisinha, dos preservativos. A doutrina católica continua proibindo-os, pois isso é parte de toda uma engenharia moral que atravessa séculos. O Papa, na verdade, apenas retomou algo que estava sendo esquecido nos debates entre o uso e a proibição da camisinha, especialmente em relação à AIS. Trata-se da caridade, do gesto e da atitude de misericórdia, de compaixão, diante do que a doutrina católica considera pecaminoso. E essa postura caridosa tanto vale para a prostituta que usar a camisinha para evitar infectar o outro, como para um crime ou um pecado qualquer. Agostinho de Hipona já falara no exercício da justiça e da caridade: “justiça caridosa, caridade justa.”

Talvez, o grande problema esteja em o mundo contemporâneo não apreender, de vez, que quando o Papa fala “urbi et orbi” – “para Roma e para o mundo” – sua mensagem, por mais força moral que tenha, se dirige ao mundo católico, aos que professam a fé católica. E os demais povos do mundo? O Ocidente vive, ainda, debaixo de fortíssima influência do Cristianismo, muito mais, no entanto, na teoria do que prática, ou conforme adaptações que diversas vertentes cristãs foram dando às origens, a ponto, até mesmo, de ter-se criado a mais sólida união entre cristianismo e capitalismo, conforme a visão protestante. Ou, agora, a das tais igrejas da prosperidade, nas quais são pastores e líderes de seitas os que mais prosperam. Mas o mundo é múltiplo, diverso, não apenas cristão.

Ora, esse patrimônio moral cristão, especialmente o católico, está cada vez mais difícil de ser mantido em suas estruturas antigas. Nada mais é o mesmo, nem o mundo, nem o homem. A vida pessoal, social, urbana – bombardeada por todas as influências e pressões que nada têm de espirituais – marca-se por um perplexidade atordoante, tempo sem definições. As cristãs, assentadas em fundamentos pétreos, não conseguem responder ao anseio dos povos não mais para viver ou para alcançar a vida eterna, mas, agora, apenas para sobreviver. Como dizer a filhos – numa sociedade universalmente consumista, hedonista, materialista – que mantenham a castidade ou que não usem preservativos ou anticonceptivos?

Enfim, o Papa nada falou de novo. Apenas enfatizou um aspecto fundamental que estava encoberto pela poeira de debates mais falaciosos do que verdadeiramente morais: a caridade, a compaixão. Que vale para tudo, onde estiver esse pobre, triste e desesperado ser humano, “o caniço frágil”, na compassiva visão de Pascal. Bom dia.

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