O patético Suplicy

PatéticoMeu primeiro contato com o Senador Eduardo Suplicy foi em 1986 quando, ainda deputado, se candidatou ao governo de São Paulo, sendo derrotado por Orestes Quércia. Encontramo-nos no bar Brahma, em São Paulo, espaço ainda famoso por seu estilo romântico, músicos velhinhos ao piano, bandeoneón e violino. Mal consegui entrevistar Suplicy pois, a seu lado, a então sua mulher Martha, não o deixava falar. Ele era, desde então, um homem afável, gentil, educado, personalidade cativante, que transpirava honestidade e honradez.

Por convicção, com consciência reta, votei – sem nunca ter partilhado da cartilha do PT – em Eduardo Suplicy nas vezes em que se candidatou ao Senado. E, ainda hoje, vejo-o como uma das exceções entre a politicalha de Brasília. No entanto, penso ser preocupantes algumas atitudes dele, como se Suplicy estivesse perdendo o senso de limites, correndo o risco de se tornar ridículo ou de perder a credibilidade que marca a sua história pessoal e política. Há algo de desequilíbrio que deveria ser percebido por sua assessoria ou gente mais próxima. Pois Suplicy começa a ser maldosamente usado por uma certa imprensa especializada em ridicularias e em escândalos, como se fossem novos paparazzi, procurando o espetáculo à custas da ingenuidade ou da perda de senso de alguns.

Ora, tenho, para mim, que o programa CQC é uma das novidades inteligentes da televisão brasileira, com um jornalismo satírico e um estilo despojado que já se impôs entre o público. A ousadia, o atrevimento, a quase falta de limites é a marca do CQC, uma proposta deliberada que tem sido causa de seu grande sucesso, com um elenco de jornalistas altamente competente. Há um jornalismo crítico a partir do humor cáustico, com resultados notáveis como a provar a máxima latina “ridendo castigat mores”.

O CQC propôs um novo quadro humorístico-satírico e o Senador Eduardo Suplicy aceitou participar dele, indo a um bar de Vila Madalena onde passaria algumas horas trabalhando como garçom. Ora, nada há de indigno ou de menor na atividade de garçom, profissão e serviço de alto valor para a sociedade. No entanto, um senador da República não pode, penso eu, submeter-se a brincadeiras que acabam se tornando patéticas, como patéticas foram as cenas de um Suplicy atordoado, com ar abobalhado, sendo conduzido de lá para cá, servil às ordens da reportagem, sujeito a risos, brincadeiras e piadas. Era um senador da República sendo ridicularizado, da mesma forma como já o fora ao aceitar vestir, por sobre a roupa, uma cueca vermelha e desfilar pelos corredores do Congresso Nacional.

Com toda a certeza, o Senador Suplicy não teve maldade, malícia ou má intenção ao aceitar exibir-se como personagem de uma farsa. E aí está, penso eu, o problema: ele não está percebendo as coisas, o que significa perder a noção de limites e, também, da nobreza de um cargo que está sendo, por outros senadores, transformado em atividade menor e em sinônimo de malandragem. Poder-se-á dizer que melhor fora senadores agirem como atores de comédias em lugar de exercerem malandragens que afetam no país. Nem uma, nem outra coisa. Há que se restabelecer a dignidade do cargo e Eduardo Suplicy tem sido um dos poucos a mantê-la, o que exige dele cuidados maiores para não banalizar a exceção que ele tem sido. Por bondade, por boa vontade, por generosidade, Suplicy não pode ser submetido a situações vexatórias. Se ele não sabe negar-se a propostas satíricas de jornalistas, bem poderá, também, ser ludibriado pelo raposismo de seus companheiros de Senado. É uma pena, penso eu. Bom dia.

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