O pedreiro e Bach

picture (23)Ninguém conhece ninguém. Certa época, morei em lugar ainda mais distante, quase ermo, à distância de coisas Ed de pessoas que passaram nada mais a ter com uma opção livre e pessoal de vida. Era um lugar quase à beira de um lago e, então, acompanhado de meu cachorro – ainda tenho saudade dele, morto com veneno, vítima da loucura humana – eu ia ver o céu enluarado refletindo-se naquelas águas mansas. Ou, durante o dia, lá íamos nó, o cachorro e eu, ficar naquele silêncio onde se ouviam apenas as vozes interiores, vozes da alma. Ou canto de passarinho. Eu tomava de caneta de um boco de notas e ficava lá escrevendo, sob uma árvore benfazeja. Ou simplesmente anotando. E o meu belo cão pastor ficava a meu lado. E conversávamos através dos olhos. Aprendi a ouvir a linguagem das coisas, embora nem sempre tenha sabido usá-la.

Depois, mudei-me para outro cantinho, distante ainda, onde consegui recolher coisas minhas eu andavam espalhadas: livros, discos, quadros, objetos que fazem parte de minha paisagem. Era um lugarzinho com nome de caminho, não de rua. E me tornei amigo dos vizinhos, pessoas maravilhosas, gente humilde, aquela convivência de uma criança bater à porta e falar: “Mamãe mandou dizer se pode emprestar uma xícara de café”. E, num dia qualquer logo em seguida, a mesma criança voltar com uma cesta: “Mamãe mandou trazer essas mandiocas.”

Posso dizer que há mais humanidade entre os simples, pessoas lutadoras mas alegres, sofridas e decentes. Numa festa de São João, o quarteirão fez uma coleta para contratar o sanfoneiro, fazer quentão e amendoim e pipoca, dançar a quadrilha, bandeirinhas colorindo a calçadas. E a solidariedade? Certa vez, pela manhã, fui sair, o carro não pego. Então, lá apareceu a vizinha para ajudar a empurrar. Fui-me embora com o coração alegre, sabendo-me acolhido, protegido.

Naqueles poucos anos, aprendi uma grande lição, lição de povo, de como ninguém conhece ninguém. Foi à tardezinha e abri a porta para regar as plantas. No ainda chamado toca discos, vinha o som de Bach. Quando cheguei perto do portão, mangueira na mão, lá estava o homem velho, pedreiro aposentado, trabalhador com tijolos e cimento, mãos grossas, jeito monossilábico de falar. Era um dos vizinhos, encostado ao poste. “O senhor não faz questão, não é? É que eu adoro ouvir seus discos, sou apaixonado por essas músicas clássicas e fico aqui ouvindo.”

Contou-me que sempre fazia aquilo, sem que eu o percebesse. Então, convidei-o a entrar, mas ele se recusou, constrangido. E percebi que eu quebrara um momento mágico. Mas aprendi: ninguém conhece ninguém. E quem foi que disse, mesmo, que o povo não gosta de arte? Tolos e pretensiosos, que somos. Bom dia.

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