O perfume dela

picture (71)Para Hobsbawm, são tempos interessantes. Vivo estivesse, Jorge Amado diria serem ásperos, ásperos tempos. Talvez, sejam interessantes e ásperos, nossos tempos. Mas, também, vulgares. E não estaria, talvez, na vulgaridade, a marca principal dessa época mais difusa do que confusa?

Fala-se em violência como se as pessoas, individualmente, nada tivessem a ver com ela. É a noção difusa das coisas, dos acontecimentos. Tudo ocorre como se ninguém fosse responsável. Agressões, farsas, espertezas, crueldades, individualismo, a feiúra de atos, de gestos, de atitudes – é como se essa confusão pertencesse a um mundo apenas exterior. Por estar difusa, não conseguimos vê-la em cada um de nós: eu, tu, ele, nós somos violentos. Ou estamos.

No entanto, há ansiedades positivas, ainda que difusas: a carência e, também, como que uma nostalgia do belo. O belo é bom. Ou, pelo menos, não faz mal. E isso está na alma humana, que foi tecida para viver no Éden. Outro dia, vi uma criança deslumbrar-se com o belo num momento de irritação. Ela exasperava-se com o choro do irmão, bebezinho ainda no berço. Enraivecido, passou a gritar. Sugeri-lhe, então, que, para o bebê chorão, tentasse uma cantiga de ninar, o “nana nenê, que a cuca vem pegar”, por que não? Tímido, ele cantarolou e viu, devagarinho, o irmãozinho deixar de chorar. O belo causara efeito. A delicadeza. A cordialidade. O menino cantador se encantou.

Confesso não saber, hoje, quem se tornou mais grosseiro e agressivo, se homem, se mulher, se ambos na mesma dimensão. Por ser algo novo, porém, é a grosseria feminina que mostra nuanças penso que alarmantes. Não fazem parte da natureza feminina a agressão, a brutalidade, quase que atributos do masculino, guerreiro e caçador. A força e o poder da mulher estão em sua feminilidade. E ser feminina nunca significou ser fraca, submissa ou ausente. O feminino encanta o mundo. Logo, sem o encanto da feminilidade, o mundo se faz desencantado.

Há poucos anos, escrevi sobre Augusta Maygton, Augusta Maygton de Azevedo Ribeiro, dona Augusta, a Augusta do Vosso Pão. Ora, sempre soubemos da personalidade fascinante, da exuberância de uma mulher polêmica mas vencedora, ao mesmo tempo feminina – de uma sensualidade natural e irresistível – e forte. A beleza e a elegância de Augusta faziam parte da sua personalidade lendária. Era impossível não ser imantado, seduzido por ela.

Eu sabia disso. Mas não imaginei fosse ainda mais poderosa a presença dessa mulher, as marcas que deixou, as impressões que causou. Tantos foram telefonemas e e-mails carregados de carinho e saudade que entendi: a mulher lendária tornara-se mito. À época, transcrevi um e-mail – autorizado pela autora – que ainda me parece simbólico desse magnetismo que Augusta legou aos piracicabanos:

“ Eu, pequenina e humilde, acompanhava minha mãe até o Vosso Pão. Mas o que me fascinava não era o pão ou os doces, era Dona Augusta. Eu ficava extasiada olhando para aquela mulher: o porte, a segurança, a pele, tailleur de linho bem amassado, geralmente branco. Mas o que marcou foi o perfume, ficava no ar aquele aroma delicioso. Levei anos até encontrá-lo e ter condições de comprá-lo: “Muguet du bonheur”, de Caron. Quando o meu marido foi para a França, a única coisa que pedi foi esse perfume.”

Quando nem o tempo desfaz um perfume de mulher, mais do que o perfume o que existiu foi a mulher. A feminilidade de Augusta é uma ausência significativa destes tempos interessantes, mas ásperos e vulgares. Bom dia.

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