“O poder corrompe e…”

Corrupção e poderA corrupção é própria da condição humana. Nos demais seres vivos, a corrupção se dá no corpo físico, na degeneração gradativa, na caminhada em direção à morte. No humano, além dessa corrupção física, há a pior delas: a corrupção moral. E esta acompanha a humanidade desde os seus primórdios, angustiando pensadores e filósofos, tentando ser compreendida, equacionada, combatida especialmente quando se trata da coisa pública. Tem sido, porém, uma luta estéril, como se, realmente, também a corrupção moral fosse própria da natureza humana. Afinal de contas, corrupção é o oposto de geração. Logo, o que é gerado vai sendo corrompido.

Uma das mais agudas observações a respeito do poder e da corrupção foi-nos deixada por um brilhante historiador britânico, defensor intransigente da liberdade, Lord John Acton. Numa carta a um prelado católico, ele escreveu, no longínquo 1887: “E, lembre-se, quando se tem uma concentração de poder em poucas mãos, freqüentemente homens com mentalidade de gangsters detêm o controle. A história provou isso. Todo o poder corrompe: o poder absoluto corrompe absolutamente.”

Nas três grandes vertentes do poder – o econômico, o ideológico e o político – a corrupção tem sido, ao longo da história, quase impossível de ser contida. Tem-se conseguido minimizá-la, mas não se consegue extirpá-la. O poder – quando não colocado a serviço e em benefício de outros e de comunidades – se transforma num instrumento obsessivamente egoístico e cruel, matando ou ocultando conceitos morais e humanitários, sendo refratário à solidariedade e insensível à fraternidade.

As democracias liberais e representativas, quando adotam a economia capitalista, podem ser chamadas, sem se cometer qualquer injustiça, de democracias burguesas. Quando isso acontece, desvirtua-se o verdadeiro espírito democrático que lhes dá sentido com a divisão de poderes: Executivo, Legislativo, Judiciário. Estes – que deveriam ser independentes mas harmônicos entre si – acabam contaminados pela concentração do poder geralmente pelo Executivo, em conluio especialmente com o poder econômico. Ora, quando o político e o econômico se aliam, dificilmente deixarão de cooptar,também, o poder ideológico que deveria abrigar-se na imprensa, nas faculdades e universidades, nos círculos intelectuais.

Esquecida a responsabilidade de o poder estar a serviço do povo, este, inevitavelmente, se corrompe. Confirma-se, então, Lord Acton: “o poder corrompe.” E quando há a concentração de poder – que o torna absoluto – volta a confirmar-se a assertiva do historiador: “O poder absoluto corrompe absolutamente”.

Quando se fala em poder absoluto, pensa-se, quase sempre, em ditadura e ditadores, em tiranias e tiranos. No entanto, o poder absoluto está presente nas democracias de maneira visível, palpável, ainda que protegido por falsas afirmações de legalidade. Em qualquer cidadezinha, quando, por exemplo, o Prefeito consegue controlar as Câmaras Municipais – cooptando-as, negociando, corrompendo-as – está se arrogando, a si mesmo, o direito ao poder absoluto. Que se torna ainda mais sólido quando acompanhado de alianças com o poder econômico (empreiteiras, construtoras, empresas) e o ideológico (imprensa, universitários, etc.) O povo fica indefeso, pois a sua representação política foi traída, corrompida, anulada. Quando o Legislativo – que é o principal poder político, o mais representativo do povo – se deixa corromper pelo Executivo, cria-se o poder absoluto. Que, portanto, é absolutamente corrupto.

Lord Acton estava inteiramente certo. E, desgraçadamente, a História não nos tem servido para nada. Talvez porque, no fundo, diante de tanta corrupção, o povo também se tenha cansado. Ou como, profetizou Ruy Barbosa, “com vergonha de ser honesto.” É o estopim para uma inevitável explosão. Que já acontece no mundo todo. Bom dia.

1 comentário

  1. Marisa Bueloni em 26/05/2013 às 22:05

    Diante de tanta corrupção, amigo, fico com o Bóris:
    "ISTO É UMA VERGONHA!!!" – Marisa

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