O porrete e John Wayne

John WayneSe houve engano do presidente Lula em relação a intermediar um acordo com o Irã, esse pode ter sido o de acreditar que os Estados Unidos viessem a aplaudir ou apoiar o entendimento. Mas não creio nessa suposição ingênua. Pois qualquer iniciante no estudo de política internacional sabe que os Estados Unidos não têm olhos de ver e nem ouvidos de ouvir o mundo, a não ser quanto a seus próprios interesses. Aliás, quando do governo de Juscelino Kubitschek, um dos mais poderosos representantes do governo estadunidense declarou, para surpresa dos incautos, a frase que representa a realidade da política externa: “as nações não têm amigos, mas interesses.”

No caso do Irã, o Brasil também tem interesses, como os têm todos aqueles envolvidos nessa luta – que é de natureza geopolítica e econômica – sem tréguas que os próprios Estados Unidos desencadearam pelo mundo em sua diplomacia das canhoneiras: que os canhões falem antes de qualquer diálogo. Essa é a tradição dos governos dos Estados Unidos, desde a Doutrina Monroe – “A América para os americanos” – e a política do “big stik”, o grande porrete empunhado por Theodore Rossevelt ainda no início do século XX.

Negar que se trata de uma grande nação, de um grande povo seria estupidez, pois as conquistas dos Estados Unidos, seu desenvolvimento, sua economia ainda que agora combalida, sua produção cultural acabaram por invadir o mundo. Os Estados Unidos representam o mais espetacular sucesso de um povo em suas relações com o mundo em tempos modernos, na construção de um império monumental. Mas, como todo império, seus imperadores são arrogantes, não importa se Barack Obama, se George Bush, pois o que os move, antes de mais nada, é como que um compromisso messiânico de envolver o mundo sob seu manto. É paranóica a pretensão de submeter os povos ao “american way of life”.

Aquele iniciante em estudos de política internacional poderá ver o rol de invasões bélicas que governos estadunidenses promoveram mundo afora. E suas conquistas territoriais, posses, domínios, ao estilo dos filmes de bangue-bangue que consagraram John Wayne como símbolo da coragem daquele país. De armas em punho, como xerife ou vingador, como mocinho com sua justiça própria, John Wayne usou do “big stick” sem encontrar concorrentes. Para o caubói heróico, não existiram povos, etnias, espaços, limites. Da mesma forma como o solo dos Estados Unidos foi manchado por matanças e por lutas fratricidas, há a falsa crença de que eles têm o direito de continuar ensanguentando o mundo todo.

Os Estados Unidos jamais aceitariam qualquer entendimento com o Irã a não ser o da submissão deste, que ele pretende seja incondicional para não ser pela força. Trata-se o Irã como se fosse um país de bárbaros, esquecendo-se – ou não o sabendo por ignorância – que é da milenar Pérsia que estamos falando, de uma das mais refinadas culturas universais, dos medos e dos persas, pátria de Ciro, cerca de dez ou onze séculos anteriores a Cristo. Ora, Ciro é mais qualificado do que John Wayne, ainda que a teocracia imposta pelos aiatolás continue assustando o Ocidente. A propósito, quando tantos, alguns hipocritamente, receiam o que chamam de fundamentalismo islâmico no Irã, há que se lembrar de que esse grande Ciro, O Grande, foi o libertador dos judeus na antiga Pérsia e, para ele, seria o judaísmo a religião oficial de seu país. Ironias da história.

Não creio que o presidente Lula e o arguto chanceler Celso Amorim tivessem acreditado na boa vontade dos Estados Unidos, cujos interesses na região são imensos, tantos que não hesitam em promover guerras, invasões e criação de ditadores, para controlar o oceano de petróleo de Iraque e Irã. Por que haveriam de aceitar o Brasil como um intrometido, com interesses próprios também lá? Não o fizeram, nem mesmo agora quando o Brasil apenas conseguiu, ao lado da Turquia, que o Irã voltasse a um acordo anteriormente aprovado pelo mesmo governo estadunidense. A questão nuclear apenas serve como justificativa para o domínio daqueles mares de petróleo.

O egocentrismo de John Wayne é tal que ele acredita ser, realmente, o dono ou a polícia do mundo. Mas o mundo, neste início de terceiro milênio, não suporta mais a hegemonia de um grupo de interesses que manipula a economia, a cultura, as religiões, as etnias como se jogasse com marionetes. Ora, como é possível exigir total controle sobre o Irã, quando se permite que Israel, seu vizinho próximo, possua armamentos atômicos? Por que não lutar pelo desarmamento total, como o Brasil está pretendendo, em vez de proteger clubinhos atômicos? A sra.Hillary Clinto parece estar trabalhando para que se casse o Prêmio Nobel da Paz outorgado a Obama, prêmio cada vez mais questionável.

A arrogância dos Estados Unidos em ignorar o acordo com Irã, promovido por Brasil e Turquia, é outra bofetada que se dá nas nações que acreditam em convivência pacífica e na diplomacia como instrumento para impedir a guerra. John Wayne, como se sabe, não seria herói se não enfrentasse ou inventasse bandidos. Mais incrível, ainda, é ver como certa imprensa brasileira prefere alinhar-se ao estrangeiro em detrimento de nosso próprio povo.

Mas este é, apenas, o pensamento de um avô que tem três netinhos estadunidenses, meus gringos queridos. Bom dia.

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