“O preço da liberdade é a eterna vigilância”

GrilhõesNós, brasileiros, temos uma extraordinária capacidade para banalizar e vulgarizar praticamente tudo. Desde que Pero Vaz de Caminha comunicou a Corte que, aqui, “plantando, tudo dá”, até a vida foi banalizada. Pois a fertilidade da terra e das pessoas é de tal forma natural que o valor e a importância banalizam-se. Criamos o hábito de nos acostumar com tudo. Mas o hábito, além de uma virtude em certos casos, é um mal perverso em muitos outros. O hábito diante do mal, do medíocre, diante da perda de princípios – esse é um péssimo hábito que nos leva ao comodismo, à indiferença, a um individualismo pernicioso.

A antiga UDN – com seu falso moralismo – adotou o lema: “O preço da liberdade é a eterna vigilância.” Na verdade, aquele partido roubara a frase da “Bíblia de Thomaz Jefferson”, um dos pais dos Estados Unidos como nação. Jefferson conseguiu, com sua pregação cívica, conscientizar povos através de seus valores humanísticos.  E a liberdade e a justiça eram pilares de seus pensamento e ação.

Liberdade, porém, somente consegue valorizá-la intensamente quem a perdeu. Pouco adianta teorizar, fazer estudos acadêmicos, escrever por ter ouvido ou lido – se não se sentiu na carne, na alma, a perda da liberdade e a imposição da tirania. Sem liberdade, tornamo-nos escravos, pois tirania, ditadura são escravidões. O Brasil e os brasileiros menos privilegiados fomos vítimas dessa escravidão por duas décadas. Por isso, é importante, sim, rememorarmos o 1º. de abril de 1964. Para que ele não se repita. E para não sejamos vítimas de novas farsas até mesmo na data do golpe militar que, com medo do “Dia da Mentira”, oficializou o 31 de março como data da quartelada.

Teorizar, imaginar, fazer estudos acadêmicos, pesquisas, elaborar análises apenas “a posteriori” – tudo isso é importante, sim. Mas é uma escritura elaborada pelo pensamento. Os anos da ditadura – para quem os viveu na carne – foram escritos com sangue. Não podem, pois, ser tão somente lembranças acadêmicas, alvo de discórdias e de versões antagônicas. Eles existiram na violência, no chicote dos feitores, nos porões do Exército e das delegacias de Polícia, na morte e no martírio de milhares de pessoas.

Em Piracicaba, a tirania também aconteceu e nos moldes da advertência do jurista Pedro Aleixo: “O mal da ditadura está no guarda da esquina”. Ou seja, nos pequenos ditadores, nos anões que se viram gigantes pelo poder da violência, da tortura, das ameaças, das extorsões, dos seqüestros. Piracicaba viveu isso entre 1972 e 1975. E o inferno estava nos porões e subterrâneos da Polícia, onde um facínora   oficial, de codinome Lazinho, implantou um sistema de torturas, em aliança com outros policiais e alguns advogados.E o silêncio medroso e praticamente oficial de toda uma cidade.

O então O DIÁRIO – do qual mantenho o orgulho de ter sido diretor e proprietário – não teve medo de sair em defesa dos oprimidos, dos sofridos, das vítimas de algozes sem alma. Numa ação – que, hoje, sei ter sido suicida – acolhemos as vítimas, denunciamos os torturadores, contamos com pouquíssimo apoio, mas cumprimos a missão jornalística de “cão de guarda da sociedade”.

Ao voltar a publicar os dramáticos e dolorosos depoimentos daquelas frágeis vítimas, o intuito é o de atiçar consciências e lembrar que “o preço da liberdade é a eterna vigilância”. Se continuarmos indiferentes e alheios, personalistas e ausentes, tudo poderá, um dia, se repetir. A questão não é de ordem política, mas ética. Que, portanto, os depoimentos que voltamos a publicar, despertem a indignação, esse componente essencial do comportamento ético de um povo. Bom dia.

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