O retorno de trilhos e trens

Quem andou de bonde não esquece jamais. E quem viajou de trem – especialmente no “Maria Fumaça”, esquecer-se também nunca haverá de. Bondes tinham balanços mágicos, sons amoravelmente familiares, o cobrador amigo de todos, o condutor simpático, ambos de farda s e bonés. E o cheiro da “Maria Fumaça”, misturando-se ao perfume dos campos através dos quais o trem passava? A própria fumaça que lhe saía das chaminés peculiares parecia harmonizar-se com a paisagem, as nuvens que também passeavam pelos céus.

Tudo acabou por estupidez e visão caolha, deformada pela ambição de lucros e vantagens. Se Juscelino, implantando a indústria automobilística, fez o Brasil sair do marasmo – aproveitando-se das bases industriais lançadas por Getúlio Vargas – permitiu, por outro lado, que, lentamente, trilhos, trens e bondes fossem abandonados, esquecidos, exterminados. Todos os países do mundo desenvolvido preservaram, expandiram e estimularam a locomoção e o transporte sobre trilhos. E, tivesse sobrevivido, a “Maria Fumaça” seria, hoje, um dos mais modernos, dinâmicos, limpos, saudáveis e úteis sistemas de transporte.

Agora, o governo brasileiro – ainda que tardiamente – decide por construir milhares de quilômetros de estradas ferroviárias, unindo regiões estratégicas do país. Poder-se-ia dizer que antes tarde do que nunca. De minha parte, o que mais lamento é Piracicaba ter perdido a oportunidade – que estava às mãos, disponível, apenas aguardando audácia e vontade política – de implantar o sistema ferroviário urbano, no antigo traçado da Estrada de Ferro Paulista.

O plano e a visão de futuro nasceram na Unimep, ainda na reitoria de Almir Maia e no governo municipal de José Machado. Seria um traçado urbano de trem, iniciando-se na estação Paulista, atravessando bairros – incluindo Santa Rita, São Francisco, todo o Taquaral – criando-se a Estação Unimep, podendo chegar até Rio das Pedras. Era, na verdade, a retomada do traçado original dos trilhos da Paulista, uma árdua conquista de Piracicaba que teve, em Paulo de Moraes Barros – sobrinho de Prudente de Moraes – seu grande líder e batalhador.

Era uma outra visão de mobilidade urbana. Os projetos se aperfeiçoavam, estudava-se a captação de recursos, fizeram-se consultas, havia entusiasmo mesmo porque aquela região era, reconhecidamente, a que mais haveria de expandir-se em Piracicaba. Aliás, o próprio Barjas Negri defendeu sua tese acadêmica no estudo da expansão que já se anunciava. O fato é que José Machado terminou seu mandato, Almir de Souza Maia deixou a reitoria da Unimep que também entrou em crise – e cadê o toucinho daqui? Ora, o gato comeu. E o gato, estava no mato. Agora, anda solto por aí.

No lugar dos trilhos, no plano ferroviário urbano, aquele espaço foi tomado por novas avenidas, novos viadutos, mantendo-se a irracionalidade de priorizar automóveis e veículos motorizados. Enquanto o mundo olha para o futuro em busca de soluções, por aqui insistimos em métodos e visões antigos, embrulhando-os em papel de presente como se fossem símbolos de desenvolvimento e de uma nova modernidade. Não são. E Piracicaba – quando o Brasil retoma a caminhada pelos trilhos – perdeu a oportunidade de revelar o seu histórico espírito pioneiro. Que se há de fazer? Bom dia.

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