O suicídio que faltou

picture (7)O presidente eleito dos Estados Unidos, Barack Obama, já começou a agir. E a infame prisão de Guantánamo, a partir da grande farsa da invasão do Iraque, talvez muita coisa comece a ser revista e recontada. O que passou não acabou. Nem pode ser esquecido. Lembro-me de quando – com a naturalidade de quem trata a vida como questão apenas banal – o jornal “O Estado de São Paulo”, em editorial, comentou sobre a prisão de Saddam Hussein: “(…)era um rebotalho que nem sequer teve a dignidade de se suicidar com a pistola que portava”. Seria revoltante, não fosse a já conhecida, imutável e pétrea fixidez filosófica do vetusto jornal. O ser humano, o que é isso diante da economia, hein?

O “Estadão” se alinhara aos que vêem, no suicídio, em algumas situações, um bem maior ou, pelo menos, respeitável. A discussão é milenar, mas o suicídio, na consciência humana, marca como ferro em brasa. Tabus são questões sagradas proibidas de serem tocadas. Se existe esse sagrado intocável, o suicídio é um dos tabus da humanidade, coberto muito mais de grandes silêncios do que de largas discussões. A questão é milenar. E como que fechada no templo dos grandes filósofos, que, em última instância, refletiram sobre o suicídio a partir do referencial sagrado da vida. Há, na existência humana, uma dimensão divina ou o homem é, realmente, único juiz de si mesmo? A questão é dramática. E dolorosa. E sem respostas.

Se, pelo raciocínio do “Estadão”, faltara, a Saddam Hussein, até mesmo “a dignidade do suicídio”, teríamos que ser mais respeitosos – tendo-os como honrados e dignos de admiração – para com os suicidas islâmicos, que, fazendo-se bombas humanas, se matam em nome da fé. Deixariam, então, de ser fanáticos para se tornarem heróis. E o mundo ocidental não teria mais o direito de achar pelo menos estranhos os haraquiris de soldados e nobres japoneses, suicídios rituais que os cobrem de honrarias.

O reconhecimento do “suicídio por honra” escancara as portas para banalizar outras discussões dramáticas sobre a vida, tais como a eugenia, o aborto, a eutanásia. E, então, a milenar e agônica reflexão de filósofos e teólogos poderá ser resolvida através de plebiscitos, em votação popular: se nasceu com defeito, mate-se o bebê; mate-se o velho, se for improdutivo; se não se quer o filho, arranque-o do ventre. E que cada um faça, da vida, o que bem entender. Por que não suicídios coletivos, como já ocorreu por aí até mesmo em nome de Deus?

No entanto, o crime “lesa humanidade” que não se comentou prosseguiu até a exibição de Saddam Hussein como se fosse um animal. E, em seguida, a cena sórdida de seu enforcamento. Houve, apenas, a voz isolada do Vaticano, de protesto contra os Estados Unidos por tratarem o ditador – ditador e tirano, sim – “como gado”. Não houve grandeza. Mas, a partir de lá, os Estados Unidos de Bush, revelaram pequenezes revoltantes. E o mundo não pode esquecer que, se Saddam Hussein existiu como tirano e como cruel ditador, isso se deveu ao apoio que os Estados Unidos lhe deram. E, também, às armas que o Brasil lhe vendeu.

Em Guantánamo, há centenas de afegãos presos, tratados como animais, sem direito a julgamento. Matam-se civis no Iraque. A crueldade que Saddam cometeu, os EUA repetiram-na. A ONU foi humilhada. A partilha do Iraque mostrou os vencedores repartindo os despojos. Assumindo o papel de gendarmes do mundo, os Estados Unidos oficializaram o “terrorismo de Estado”.

A civilização de Bush foi a barbárie dissimulada. Que Barack Obama venha logo e que os céus não permitam que ele decepcione o mundo. Bom dia.

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