Obama e filme antigo

pictureSou apenas mais um entre os milhões – ou biliões? – de seres humanos com a alma mexida pela vitória de Barack Obama. Ainda há alguns meses, a pergunta era quase a mesma em todo o mundo: quem é esse candidato de nome esquisito? Era, pensamos quase todos, um audacioso que ousava enfrentar, dentro de seu próprio partido, a candidatura tida como quase imbatível de Hillary Clinton.

Os sinais dos tempos começavam lá: Hillary, mulher, pleiteando sua candidatura à presidência dos Estados Unidos; um senador negro decidido a enfrentá-la, desafiando seu próprio partido. Algo novo continuava a ocorrer no mundo, agora num país poderoso que, por fragilidades espantosas, permitiu a destruição de alicerces financeiros tidos como dogmáticos. Insisto no tempo de verbo: algo novo continuava a acontecer. Pois já acontecera em nosso próprio hemisfério Sul: um operário, chegando à presidência de um país elitista, como o Brasil; um índio, alçado ao poder numa Bolívia secularmente colonialista; mulheres, no Chile e na Argentina, países com ranços ainda machistas. Acontecer, porém, nos Estados Unidos é repercutir, imediatamente, em todo o mundo.

Costumo acender velas em momentos agudos, sejam eles de alegria, de tristeza, de perplexidade, de desânimo, de angústia ou, apenas, para render graças. Acendo-as sem saber por que e para quem desperto a chama aparentemente frágil de um círio. Velas enganam. A um sopro, parece que se apagam. E, no entanto, reacendem logo em seguida. São como almas humanas que, parecendo mortas, renascem.

Pois bem. Acendi velas de emoção ao acompanhar a fantástica vitória de Obama, o entusiasmo das multidões, as lágrimas de alegria, sentimentos de libertação que, sendo particulares dos estadunidenses, eram também universais. E, de repente, dei-me conta, ainda outra vez, do meu imenso, quase inacreditável privilégio de ter visto e acompanhado tudo o que vi e que aconteceu.

Lembro-me da bomba atômica sobre Nagazáki, nos meus frágeis seis anos de idade. Lembro-me do fim da II Grande Guerra. Recordo-me da tristeza de meu pai quando Gandhi foi assassinado, em 1948, a sensação de o próprio mundo ter sido ferido de morte. Ouvi relatos do medo mundial, em 1949, da vitória dos comunistas na China, da ascensão cada vez maior do comunismo no mundo. Eu não tinha, ainda, dez anos de idade.

E, nos 1.950, vi a chegada dos anos dourados e das novidades mundiais e da tecnologia assombrosa. Vi a primeira televisão em 1950, na casa comercial do Eduardo Fernandes Filho (Mercantil Piracicaba), na nossa Rua Governador. E ouvi e vi a passionalidade pela volta de Getúlio ao poder. Comecei a querer entender a Guerra na Coréia. E encantei-me com a coroação da Rainha Elizabeth, jovenzinha ainda, festejos que eram levados aos cinemas, nos jornais que antecediam os filmes. Ouvi soluços da Argentina com a morte de Evita Perón, em 1952, ano em que o Brasil também chorou a morte de Chico Alves, o Rei da Voz. Maravilhei-me com a vitória de Adhemar Ferreira da Silva na Olimpíada de Helsinqui. E passei a tomar consciência cívica e política com o suicídio de Getúlio Vargas em 1954.

O filme é longo, mesmo sendo visto de frente para trás. O Brasil de Juscelino, a construção de Brasília, a Primavera da Igreja com o Papa João XXIII; o espetacular e revivificante surgimento de John Kennedy, criando a Camelot de Washington, ao lado de Jacqueline. A morte brutal e estúpida, o assassínio inexplicável de John, de Bob Kennedy, de Martin Luther King. Os russos no espaço; os EUA lançando o homem à Lua. E Elvis Presley, os Beatles, Woodstok, “fazer amor e não a guerra”, os hippies e, depois, os yuppies e, em seguida, a geração truculenta wasp (branca, anglo-saxônica e protestante) que implantou o neoliberalismo e, falsamente, decretou o fim da história. O início, o meio e o fim da ditadura brasileira. E vi tudo isso ruir. Bush foi o coveiro de um tempo. Felizmente.

E vejo, agora, um jovem brilhante, lúcido, diferenciado, carismático – debaixo de emoção e comoção mundiais – ser eleito presidente da República dos EUA. É um negro, que os racistas chamaram de elitista. Acendi velas. A esperança renasce e o filme pode ter outro início. Bom dia.

Deixe um comentário