Olhos que choram

Era uma vez um banqueiro que, dos dois olhos, tinha um de vidro. Não se sabia qual deles seria o olho humano, tão iguais, na frieza e rudez, o de vidro e o de carne. Até que um dia, ouvindo a história de vida de uma anciã – feita de tragédias, de dores, de mortes – uma lágrima correu pelo olho direito do banqueiro inflexível. A mulher espantou-se diante da descoberta: “O seu olho humano é o direito, o que chorou. O de vidro é o olho esquerdo.” O banqueiro precisou revelar: “Não, o olho que chorou foi o de vidro, o direito.” Há olhos que não merecem a humanidade que tem.

Se há, no homem, algo que revele um pouco do divino no humano, deve ser essa bacia que faz verte lágrimas dos olhos. De uma só lágrima, há uma definição poética que parece dizer tudo: “gota que morre evaporando-se, após ter dado testemunho.” Em todos os tempos e em todos os povos, a lágrima é símbolo ao mesmo tempo da dor e da alegria, da pena e da graça, da presença da divindade no homem ou da busca dela. Lágrimas foram comparadas a pérolas ou a gotas de âmbar, chamadas de cristais, aljôfares, comparadas a suspiros de jardins, ao “de profundis” da alma, ao luto e à dor sem fim. Acima de tudo, porém, lágrimas são entendidas como o desnudamento da alma, que rompe seus esconderijos por trás da razão humana.

Se o homem permitir que uma só lágrima lhe caia dos olhos, nada há a falar: a lágrima têm mais eloqüência do que as palavras. Quando se dói de sua própria dor, o ser humano derrama-se pelos olhos. Entre os rituais dos povos antigos, havia o doloroso ofertório dos astecas que, pedindo chuva a seus deuses, lhes ofertavam crianças inocentes em sacrifício. As crianças choravam e, diante das lágrimas delas, os céus choravam também. Então, chovia. Eram lágrimas do céu.

Se não é comum ao banqueiro, chorar é o natural do ser humano, a revelação da sensibilidade represada no peito. Chora-se de alegria, de tristeza, de emoção, de felicidade, de dor. Chora-se de saudade, de lembranças, de desespero. E chora-se, também, quando se sente dolorido da própria dor. Vejo jogadores de futebol, atletas chorando mais de suas dores passadas do que de vitórias e o povo compreende que eles chorem pela dor das gentes também. Pois apenas quem chora de si e por si mesmo é capaz de chorar pelo outro. Quem não se ama não ama ninguém. Quem não vive suas próprias dores não pode viver a dor alheia. Quando líderes verdadeiros do povo choram, todos choramos juntos. A nação se une através das lágrimas, o sinal da bênção que nos torna mais humanos.

Qualquer brasileiro que passou pelas humilhações impostas aos pequeninos sabe o quanto de amargura, de dor, de raiva e, também, de vitória há nas lágrimas de nossos atletas que, saindo de favelas, tornaram-se campeões. Na verdade é essa a história da grande maioria do povo brasileiro. Aqui, um torneiro-mecânico tornou-se o primeiro magistrado da Nação. Também Lula, quando chora, dá testemunho de ser possível o que parece impossível.

Se retornássemos às origens dos tempos, lembraríamos que a expulsão do Paraíso começou com Apolo. Banido do Olimpo, ele derramou lágrimas de âmbar, símbolo da pureza incorruptível e intangível. Quando um homem chora, é essa lágrima que lhe cai dos olhos, a de âmbar: a nostalgia de algo que havia perdido e que recuperou. São lágrimas de esperança. As mesmas que nossos heróis, vindos das classes populares, derramam. Para eles, há que se baixar os olhos em respeito. Pois é santa a palavra para as lágrimas: “Bendito o que chora, pois é digno dos olhos que tem.” Bom dia.

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