Olímpiadas e homem que assobia

picture (81)Sempre me recordo da pergunta que, poucos anos antes de morrer, meu pai me fez: “Você já reparou como mais ninguém assobia pelas ruas?” Eu não o percebera, mas me entristeci com a observação: também eu não mais assobiava por aí. Nem serestas e serenatas, nunca mais as fiz.

Certa vez, um vigia me contou do que lhe ocorrera por assobiar nas ruas. Era um assobiador. E, então, certa noite, uma das moradoras da rua por onde ele passava assobiando, escancarou a janela e ameaçou, desesperada, chamar a polícia: “Você está sinal para outros assaltantes? Está vigiando minha casa para dar aviso?”

Eis, pois, o pequeno cenário do mundo que construímos. E, por conseguinte, o ser humano que vamos constituindo peça por peça. Somos criadores de criaturas robotizadas. E há uma maldição implícita no processo de criação: quase sempre, a criatura é pior do que o criador. O homem globalizado, que vimos construindo, é produtivo, eficiente, competitivo, uma eficas máquina em funcionamento. Quando se cria a máquina, perde-se o humano. E máquinas não sabem, realmente, assobiando nas ruas.

Pesquisas revelaram que os nossos jovens – “por não ter o que fazer” – ficam quatro horas diárias diante dos televisores e computadores e analistas mais apressados falaram em alienação, em juventude hipnotizada, amorfa. Mas por quê? É decente, honesto, inteligente pretender que os jovens participem da realidade deformada que aí está, engolfados pelas ondas que saem do nada e levam para lugar algum? Por quê não acreditarmos que, com toda certeza, os moços estão em busca do ser humano verdadeiro, que eles sabem existir sem, no entanto, encontrá-lo? Ou essa caricatura humana dos tempos neoliberais – egoísta, hipócrita, interesseira, individualista, escrava de coisas materiais e despida de qualquer forma de sensibilidade – é essa caricatura de ser humano que serve de modelo? Construído tão defeituosamente, o “homo capitalista” parece, aos jovens, inspirar mais compaixão do que respeito.

Ora, falamos em civilização cristã, em Ocidente de valores espirituais. E, no entanto, retornamos aos bezerros de ouro. Não há jovem – no idealismo quase hormonal que o fomenta – com coração suficientemente estéril para se apaixonar por tempos e por um mundo despidos de generosidade. Matar ilusões juvenis é matar o futuro. Sem promessas de paz e de fraternidade, não há civilização que mereça dizer-se cristã.

Nesses tempos de Olimpíadas, talvez pudéssemos reaprender à lembrança dos deuses pagãos, do tão humano Olimpo grego. Não seria hora – quem sabe? – de impregnar esse árido homem capitalista da beleza do “homo ludens”, o “homem que brinca”? Pois brincar é o que nos falta, à humanidade. E rir. E dançar. Na confraternização da vida como festa, pois é festa. As alegrias báquicas, dionisíacas falam dessa comunhão entre o humano e o divino. Era dessa embriaguez que Claudel nos revelou em versos imortais: “como a do vinho tinto e de um punhado de rosas, da uva explodindo sob o pé, grandes flores coladas de mel.”

Será fantástico se esse ideal olímpico humano e pagão for reencontrado em Pequim. Talvez, voltemos a assobiar nas ruas. E bom dia.

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