Onde há lobo também há fada

picture (24)Pensei em envaidecer-me de uma das minhas mais ricas alegrias da vida e, então, dei-me conta de terem-me sido graças. E graças, nada mais há senão agradecê-las. Graças são de graça, gratuitas. Acho que, sendo presentes, nem sempre fazemos por merecê-las. Generosos são os que no-las dão. Quando as recebemos, resta-nos, apenas, a humildade de agradecermos a quem no-las dá.

Aconteceu-me o que já contei. E volto a insistir: a vida é absolutamente repetitiva. O Sol, pudesse contar, falaria: “Ontem, amanheci; entardeci logo depois; anoiteci em seguida.” E a Lua, imitando-o: “ontem, anoiteci; serenei; alvoreci.” O dia também diria o mesmo, repetitivo. De seus alvores, matinadas, entardeceres. A noite, também. De seus luares, escuridões, estrelas. E as cotovias e os rouxinóis dos amantes impossíveis do mundo shakespeareano.

Pois amantes não existem. São invenções de poetas. Logo que surgem, morrem. Morrem-se em si mesmos. São como borboletas, com a existência de um único instante. Mas isso é coisa de ficcionista. E eu sou, apenas, um contador de histórias do cotidiano. E o cotidiano – não é o que dizem? – é cozido e cozinhado com sensaborias. É o que dizem.

Certa vez, então, aconteceu-me o já contado. Minha filha apareceu e, a mim, deixou-me os netos. Eles crescem e isso dói. Fico triste e vou dificultando a escrita, tentando-a tola e inutilmente castiça. E, quando tristes, escribas ocultam o conteúdo, procurando requintar a forma. A lição é proustiana: o conteúdo não tem importância; importa a forma. É a vida vivida ao canto da cigarra. E, como se fosse possível, a “ars, ars”, a arte pela arte. Triste, divago.

Deixou-me, pois, a filha bonita, as crianças delas, meus netos. E eu me assustei, como que invadido em meu recolhimento. Cuidar deles, como fazer, fazer o quê? Já contei que, pensando fosse fingimento meu, ela me repreendeu: “Ora, pai. Faça como você fez comigo, como fez com todos nós, seus filhos: conte histórias.” Era o que eu queria ouvir: fui pai contador de histórias. E era, também, o que eu não queria ouvir: que as contei antes de ser um escrevinhador delas. Graça e penitência, pois.

Ora, não me lembro de que histórias contei. Quase todas, porém, ficaram-me na lembrança, algo milenar que se vem transmitindo através das gerações. Descobri, outro dia, que a mais antiga versão da história de Cinderela nos chega da China, quase mil anos antes de Cristo. A orfandade, a madrasta, o sapatinho, o príncipe. Essa história, sei que a contava a meus filhos, pude contá-la a netos. Da fundura dos séculos, ela acompanha o ser humano como a dizer das tristezas da vida e das alegrias, de prêmios e de castigos. Na carochinha, o ordenamento do universo, quem diria?

Portanto, graças não são apenas recebidas: graças se alcançam, graças se conseguem. Vejo-o por uma mulher querida, , com seus dois filhos, garotos de 13 e 16 anos. Todas as noites, são eles que lhe pedem, desligando a televisão: “Manhê, é hora de contar histórias.” Entram debaixo dos cobertores, a mãe põe-se ao lado deles, fica lendo livros para adolescentes. A partir de ouvir histórias, eles começaram também a lê-las.

O brasileiro, dizem as estatísticas, lê um livro por ano. E não ouve histórias. Se as mães voltassem a contar histórias, como o fazia a mãe-cegonha, este país haveria de se salvar pela leitura. Pois, filho que ouve história é mais feliz. Sabe que o lobo existe. Mas que a fada, também. Portanto, acredita em luz no final do túnel. Bom dia.

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