“Onde você estava quando ele morreu?”

john-kennedy-usa-president.siO assassínio de John Fitzgerald Kennedy – naquele já distante 23 de novembro de 1963 – foi, também, o início do fim dos chamados “anos dourados”. Alguns anos depois, em 1970, John Lennon diria que “o sonho acabou”. Mas o início do fim se deu naquele dia trágico em que duas balas atingiram o presidente Kennedy, dos EUA, que arrebatara e entusiasmara o mundo com sua jovialidade e carisma. Ao lado de Jacqueline, sua mulher, John criou a mística de uma nova “Camelot”, em Washington. Aliás, nos últimos anos, atribuiu-se a Jacqueline a romantização da Casa Branca.

Palavras não conseguem descrever a magia da vida. E aqueles anos foram mágicos, como se os deuses – embriagados – tivessem resolvido fazer uma festa universal. Foi o Papa João XXIII, criando a “Primavera da Igreja”; foram os “Beatles” incendiando o mundo; foram John e Jackie Kennedy mostrando um conto de fadas que, embora falso, era contagiante. No Brasil, Juscelino construiu e criou Brasília, numa euforia nacional. E mais euforia, ainda, houve quando a Seleção Brasileira se tornou campeã do mundo, em 1958. Éramos campeões mundiais também no tênis, com Maria Ester Bueno; no boxe, com Eder Jofre. E surgira Pelé, o monstro sagrado. E Garrincha, um anjo demoníaco. E a bossa nova. E um país – num mundo alegre – que se sentia feliz.

A morte transformou Kennedy numa lenda. Os Estados Unidos matavam os seus ídolos: Martin Luther King, John Kennedy, Bob Kennedy. Foi o sonho sendo destruído com aquelas tragédias refletindo em tragédias ainda maiores, com as ditaduras militares na América do Sul. E com o simbolismo da estúpida guerra do Vietnã que, provocando reações mundiais, acabou por transformar o mundo. Hoje, a aura de John Kennedy está opaca. Mas foi brilhante, sedutora, irresistível. Ela anunciava, dentro de um contexto mundial, o surgimento de um novo mundo. Não era, porém, real. Tratava-se, apenas, de um sonho coletivo.

Quantos daquela época estão, ainda, vivos? Quantos se lembram?Quantos poderiam responder à pergunta que se tornou mantra: “Onde você estava quando Kennedy morreu?” Não consigo sequer avaliar quantos ainda sobrevivemos, 50 anos depois. Mesmo, porém, sendo a minoria, nenhum de nós conseguiu, com certeza, esquecer o impacto daquela tragédia. Morto, Kennedy tornou-se um mito. Ninguém pôde prever o que teria, ele, sido se sobrevivesse. Os mais realistas lembram-se dele, hoje, apenas como um presidente jovem, alegre, mulherengo e, para muitos, despreparado. No entanto, tornou-se lenda. E, como toda lenda, ainda sobrevive.

Éramos muito jovens, quando a tragédia ocorreu. Lembro-me de tudo claramente. Eu tinha 23 anos, era diretor da “Folha de Piracicaba”, recém-casado. As instalações eram na Rua José Pinto de Almeida, esquina da Moraes Barros. A notícia chegou por rádio, pois a televisão era ainda precária. Quase ninguém acreditou. Paramos a redação e oficinas. Não sei por que, meu pensamento voou até Jacqueline Kennedy, a viúva. Ela – também um mito – e seus filhos pequenos. Teria sido uma conspiração? Os soviéticos estariam por trás daquilo tudo? Todas as versões eram possíveis e nenhuma, confirmada.

O mundo parou. E o medo se espalhou por todos os continentes. A imagem de mártir e de herói forjou-se rapidamente. E Jacqueline se tornou a viúva do mundo, querida, amada, como se todos quisessem protegê-la. O sonho levou outro baque quando Jacqueline se casou com o biliardário Onassis. Já estávamos, então, nos anos de chumbo.  Camelot fora apenas uma farsa.  Bom dia.

5 comentários

  1. Maria Domitila Thomazi em 22/11/2013 às 09:19

    Eu,menina ainda, saia do Colégio (Grupo Escolar),e meu pai, Alberto Thomazi que ia me buscar estava muito triste e eu logo percebi que algo muito ruim tinha acontecido. Lembro-me como se fosse hoje. Inclusive do funeral, das crianças e John-John, batendo continência para o pai morto.

    • Maria Geralda do Amaral Mello em 22/11/2013 às 11:09

      22 de novembro, daquele ano

      Eu, naquele dia do Kennedy, estava chegando na cidade, bem no Anhangabaú, ia atravessando o Vale, com trânsito nas duas mãos.
      Subi aquelas escadas do dedo que a gente pegava, e já comecei a perceber alguma coisa estranha, porque via grupos falando, falando, esquisito aquilo.
      Eu ia ao dentista, o Dr. Raul Eitelberg, na Barão, que era ainda muito chic.
      O consultório dele era do lado ímpar, isto é, do lado contrário da Galeria Califórnia.
      No Viaduto do Chá tinha um grande Jornaleiro, e eu me aproximei, e ouvi o nome Kennedy várias vezes, antes de entender alguma coisa.
      Então perguntei:
      -O que aconteceu?
      Quando ouvi que o Kennedy tinha sido assassinado, como o mundo inteiro, levei um choque.
      Ainda sem saber dos detalhes, segui pela Barão, subi de elevador (naquele tampo ainda andava de) até o quinto andar, e da sala de espera chamei o Raul e a ajudante Amélia.
      -Vocês tão sabendo?
      Contei.
      -Raul, vem ver como a Barão está, pela janela.
      O resto…

  2. Luiz Fernando Miquilini Ferraz de Arruda em 22/11/2013 às 22:20

    Tinha 6 anos… costumava buscar a “Gazeta Esportiva” no último vagão do trem que chegava em Colina lá pelas 17h00…
    Naquele dia, em vez da “Gazeta”, entreguei a grana do jornal para levar o “Noticias Populares” que meu avo Luiz Miquilini pediu num bilhete escrito para que eu entregasse ao cara do último vagão.
    “KENNEDY ASSASSINADO”… Não dá pra esquecer.
    Depois, todos os finais de semana, meu tio Zizo, irmão da minha mãe, trazia as revistas semanais: “O Cruzeiro”, Fatos & Fotos”, “Manchete”, sei lá eu… mas lembro de ilustrações sobre o caso.
    Acho que tenho guardado alguma coisa da revsita Realidade, (aquela que saiu com o Pelé com um gorro dos soldados da rainha), falando sobre a tragédia.
    Estou impressionado até hoje com a manchete do “Noticias Populares” e, ainda hoje penso ter alguma coisa a ver com o meu primeiro emprego decente em SP na empresa Folha da Manhã.
    Ainda estou num lugar não especificado, mas procuro o meu castelo num imaginário País de Gales, sei lá onde, se em Piracicaba, São Pedro…
    De saco cheio de tentar montar a minha Távola Redonda debaixo das marquises paulistanas, talvez Artemis seja o local onde se localiza a minha Camelot.

    Saúde a todos…
    Abraço Cecílio.

  3. Armando Pinto em 22/11/2013 às 23:07

    Fora do contexto, mas porque não foi aceite por e-mail em contactos, e como tal me desculpo – envio para aqui um comentário, referente a outro tema. que é:

    Sobre uma questão que em tempos coloquei ao sr. Cecílio, quanto ao artista grande mestre de iluminuras e poeta Lucas Teixeira, pseudónimo do português Armando Teixeira, ele afinal faleceu aos 95 anos no passado dia 28 de Abril, conforme aliás veio no vosso obituário do dia 30 seguinte, soube agora. Pensava que eram mais conhecidos os grandes homens da cultura residentes também em piracicaba. Obrigado na mesma. Cumprimentos. Armando Pinto

  4. Linneu Stipp em 24/11/2013 às 16:54

    Jornalistas, respeitaveis, do A Provincia.

    No 22 de novembro de 1963, trabalhava no Grupo IBEC, International Basic Economy Corporation, administradora do Fundo de Investimentos Crescinco. A IBEC pertencia ao Nelson Rockefeller, e o responsavel pelo grupo, chamava-se o Principe Marek Lubomirsky, Comandante de avião de caça da RAF Royal Air Force, da Inglaterra. Sua terra natal havia sido invadidada na 2a guerra mundial.

    Pouco depois do assassinato, os telégrafos começaram a despejar noticias e mais noticias..

    Na epoca eu era Chefe do Centro de Processamento de Dados do GRUPO IBEC ficavamos no 28o.andar do Predio do Banco Moreira Salles frente para a praça do Patriarca e Viaduto do Chá, esquina com a rua Direita.

    Recebí informação de que em razão do inesperado evento as ações cotadas nas Bolsas de Valores iriam ter alta, assim, quem dispusesse de numerario deveria investir.

    Faltava pouco mais para o meu casamento, que iria acontecer no 18 de dezembro, na Catedral de Piracicaba.

    Marca indelével.

    Tristeza mesmo,

    Linneu José Libório Stipp
    Tecnico em Contabilidade, Contador e Advogado.

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