Os lenços

Lenço no bolsoJá decidi – obviamente para minha conveniência – não ser, eu,  velho nem idoso. Sou um homem antigo. E isso me faz sentir-me atual, pois nada mais valorizado, hoje,  do que antiguidade. Até um Fusca dos 1959/60 custa uma fortuna. E há quem gaste milhões com BMW, Masseratti, o raio que os parta. Ora, o novo é antigo. E, pior ainda, o que, hoje, é novo, amanhã será antigo. Logo, o antigo permanece. Pensar nisso faz um bem danado. E não tem nada a ver com a raposa da fábula para quem as uvas estavam verdes.

Há algumas semanas, escrevendo para o “Correio Popular”, de Campinas, narrei um dos motivos de julgar-me antigo: o uso de dois lenços. Desde a adolescência, aprendi que um cavalheiro deveria, ao sair de casa, levar, sempre, dois lenços nos bolsos da calça. Um – no bolso direito, de trás – para uso pessoal. O outro – no bolso esquerdo – para servir a alguma dama que viesse a precisar dele. Eram tempos gentis em que lenços, para homens, estavam como leques para as mulheres. Havia como que um código: a mulher, se usasse o lenço, não deveria devolvê-lo se tivesse, com ele, enxugado lágrimas. Fosse-o, porém, para outra finalidade – ou simples charme – ele o devolveria com o aroma de seu perfume preferido.

O uso de leques era ainda mais misterioso. A dama – jovem ou já madura – dava sinais através de um código: de interesse, se com o leque logo abaixo dos olhos; de expectativa, se com ele junto aos lábios. E assim por diante, até na maneira de abanar-se, se lentamente, se rapidamente. E – que os jovens de hoje não se riam, bobalhões! – os moços tiravam o lenço do bolso direito e passava-o levemente nos lábios, no queixo. Era sinal de interesse, de convite silencioso. E mais: se fosse tirar a donzela para a dança – havia o que se chamava “brincadeira dançante” – o rapaz ou o homem, mostrando-se cavalheiros, usavam o lenço, do bolso esquerdo, na palma da mão direita, a que se estendia para receber a da parceira. A gentileza era para que o suor da mão não incomodasse a bela deusa, pois, naqueles tempos, a mulher era a deusa do homem. Para se ver.

Usei e ainda uso dois lenços. Houve situações cômicas e outras, emocionantes. Certa vez, recolhido numa praia deserta para concluir um livro que me angustiava, hospedei-me numa pousada retirada. As refeições eu ia fazê-las na casinha de um pescador, levando roupas para a mulher dele lavá-ls. É-me um casal inesquecível, a sabedoria na mais pura simplicidade. Um dia, ela me entregou as roupas e perguntou-me por que usava, eu, tantos guardanapos. Eram os meus lenços. E ela nunca havia visto nenhum.

Doutra feita, num casamento do qual fui padrinho, a mulher, a meu lado junto ao altar, começou a chorar, lágrimas escorrendo-lhe pelo rosto. Tímida e cavalheirescamente, eu lhe dei o meu lenço, o do bolso esquerdo. Ela nada falou e, com um aceno de cabeça, enxugou as lágrimas. Pelo código, o lenço não deveria ser devolvido. No entanto, alguns dias depois, o lenço chegou-me, todo passadinho, todo perfumado. Era outro sinal. E, daí, surgiu uma paixão aterradora, a respeito da qual nego-me a contar. Nem Deus conseguiu impedir. Aliás, Deus não impede.

Essas coisas, conto-as aqui para dizer que – pensando meus lenços serem coisa de homem antigo – fui surpreendido com um e-mail dizendo estar, eu, enganado, que ainda há cavalheiros que usam lenços. E quem o garantia era justamente a fábrica de lenços “Presidente”, os que sempre usei. Gentilmente, eles me ofereciam duas caixas de lenços finíssimos, belos que dá gosto de ver.

A “Presidente” me fez um bem danado, aumentando minha auto-estima. Antigo, sim; bobo, não. Agora, quando a intuição me avisar, sairei com dois lenços novinhos da “Presidente”. Se algo acontecer, a culpa é dela, uai. E bom dia.

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