Os mortos governam os vivos

Ainda hoje, há quem discuta a autoria e a realidade da frase: “os mortos governam os vivos”. Seria Comte, Shakespeare, Hegel, Marx? E seria verdadeiro que os mortos governam os nossos atos, como se estivéssemos irremediavelmente presos à história?

De minha parte, confesso ser intensamente influenciado por mortos queridos, até mesmo por mortos desconhecidos. De uma certa forma, eles me governam, pois me nortearam passos, me despertaram idéias, me conduziram a descobertas. A muitos desses mortos, renunciei. Mas, de alguma forma, porém, eles ficaram a partir da influência que exerceram sobre mim. De muitos outros, esqueci e nem , deles, me interessa lembrar. Há até mesmo vivos que, para mim, são mortos esquecidos.

Gostaria, neste Dia de Finados, lembrar-me, um a um, dos mortos queridos. E reverenciá-los. Mas me é impossível, tantos são eles, incluindo aqueles que não conheci pessoalmente e que nunca souberam de minha existência. Um Jacques Maritain, um Verlaine, um Machado de Assis – nenhum deles jamais soube que eu existo ou iria existir. E, no entanto, estão entre os meus mortos queridos, que são parte, ainda agora, de minha vida.

Reconheço-me como homem feito de saudade, de muita saudade. De meus pais, de irmãos falecidos, de amigos, de companheiros, de pessoas admiráveis a quem tanto devi em aprendizado, em carinho, em sabedoria. Penso, num repente, em D.Aníger Melilo. Sei que, ao lado de meus pais, é ele a minha saudade maior, como se parte de minha alma tivesse sido ele o construtor. E que se fragilizou com sua ausência, como um fogaréu que se tornou chama. Pois, por incrível pareça, ainda hoje é a presença viva de D.Aniger que me aviva a chama trêmula, com um imenso sentido alentador. Morto, ele me governa quando dúvidas me assaltam na ordem espiritual, moral, social.

Outra saudade imensa: Geraldo Carvalhaes Bastos. Fomos ferrenhos adversários políticos um do outro. Eu era muito jovem e ele, já homem maduro. Engalfinhávamo-nos politicamente. E, certo dia, nos encontramos num abraço comovido que se tornou verdadeira comunhão até que ele se fosse. Geraldo e eu nos encontrávamos todos os dias, no velho O DIÁRIO. Fazíamos política juntos, comandávamos o movimento de Cursilhos, chegamos a parecer irmãos siameses. O elo foi tão forte que, de uma certa forma, nos tornamos confessor um do outro. É saudade que machuca. E que me deixa a vontade de outra vez, tantas vezes já citada para definir saudade. Só que, agora, não sei mais se essa vontade de outra vez é para que eles, os mortos queridos, retornem ou para que eu me vá ao encontro deles.

Paro por aqui. Há mortos demais governando-me. E aprendi a deixar que eles me governem, pois me inspiram e me dão forças. Bom dia.

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