Os que “ficam” na tevê, na internet

pictureSurpreendeu-me a informação de ser de quatro horas a média diária dos adolescentes diante do televisor ou na internet. Pensei fosse mais. Pois, há alguns anos, uma outra pesquisa detectava a média dessa morte lenta dos adultos: seis horas diárias de tevê. Quase dois dias por semana, oito dias por mês. Ou mais de três meses por ano. Ao longo de 20 anos, o adulto brasileiro terá ficado cinco deles vendo televisão. Só para lembrar: Hebe Camargo está no ar há quase 55 anos. Silvio Santos há cerca der 35.

Segundo a pesquisa, os adolescentes consultados revelam: por “falta do que fazer”, a alternativa é a tevê, a internet. Os pais trabalham, não estão em casa; a violência nas ruas; a escola, fazendo-se quase que apenas profissionalizante; ausência de áreas de lazer, de estímulos. Esse não tão doce “far niente” já deixa seqüelas graves: a obesidade dos jovens preocupa médicos e governos; os divãs de psicanalistas agradecem a preferência. Nunca se vendeu tanto catchup como agora, nunca os ditos analistas imaginaram ganhar tanto dinheiro. A gloriosa humanidade globalizada está em crise existencial. Ainda. E piorando.

Ora, aprendi a acreditar em sinais dos tempos. Mais ainda: a acreditar em sinais, pois a vida os emite ininterruptamente. Não é verdade haja explicações para quase tudo, como pretendem racionalistas pétreos. Racionalizam-se a vida e o mundo para tentar enquadrá-los em limites estreitos da razão humana. Se evitarmos falar de desígnios – árabes olham estrelas e acreditam no “maktub”, o escrito nelas – não há como negar o concerto universal, o ser humano participante do cosmos. Também esse é “mysterium tremendum”, do qual ninguém foge. Por isso, os meninos, talvez, estejam emitindo-nos sinais, sem que nós e eles mesmos percebamos. E se – mesmo internet ou televisão como alternativa – estiverem, eles, certos?

Chega quase a ser fatalismo: quando não se tem para onde ir nem para onde voltar, fica-se. Até no namoro, não é “ficar”, o que dizem? No fundo do poço, talvez descubramos que esse “ficar” dos jovens namorados possa ocultar um belíssimo desejo de estabilidade. Eles, os meninos, “ficam”. E ficam em tudo, até mesmo diante da televisão. Para onde ir? Não apenas um lugar, um espaço – mas ir também em relação ao tempo.

Penso que penso, sou levado a crer que os garotos buscam – ainda que nem se dêem conta disso – o caminho de volta, como se tivessem uma sabedoria precoce, um instinto de sobrevivência mais aguçado. É como se cada um – olhando-nos e vendo-nos, a nós, adultos – se dissesse: “não quero ser eles, não quero essa vida para mim.” Eles retornam sem terem ido. Por que nos imitar? Por que viver modelos que, tendo destruído pilares, não construíram outros?

Brincamos muito – e irresponsavelmente – de ser “preciso levar vantagem em tudo”. Matamos ideais e sonhos em nome de pragmatismos estéreis. Conquistamos a Lua, chegamos a Marte, inventamos “bombas inteligentes” que matam povos inteiros, tornamo-nos deuses da ciência e da tecnologia – mas esquecemos de como se constrói o ninho, o lugar do aconchego e da segurança, do amor e da comunidade. Pensando vencer, perdemos.

Os adultos não “ficamos” em mais nada, a não ser os que esperam a chegada da morte chegar da televisão. Saímos e não soubemos voltar, continuando soltos por aí, naquilo e como aplaudíamos nos grandes festivais da tevê: “sem lenço, nem documento.” Perdemo-los e não os encontramos mais.

Os garotos “ficam”. Nem que seja diante da televisão ou na internet. Mas ficam. O mundo também irá querer ficar após a devastação de Wall Street. Bom dia.

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