Ossobuco e burrice humana

picture.aspxHomem é o mais tolo bicho já produzido pela natureza. Digo-o por mim. E assumo. A burrice masculina tem dimensão infinita.

Numa dessas tardes, esparramado numa rede e ouvindo canto de passarinhos, eu me via como um daqueles sultões das velhas Arábias, o próprio rei de Samarkand, o das mil e uma noites. Minha alma árabe é feita de rococó e palpita, feliz, diante de alegrias e prazeres humanos, incluindo alguns dos pecados capitais.

Além de rei de Samarkand, vi-me como Ulisses, quando retornou aos braços de Penélope, a que o esperou tecendo a lã. E não é que, quase sessentona, a mulher me esperara, tantos e tantos anos distantes um do outro? Lá estava ela, cuidando das flores, regando-as, a sedução dessas maravilhosas mulheres maduras, com rugas, com celulite, com pneuzinhos na cintura, com flacidezes, mulheres sem silicone, sem enxertos, moldadas apenas tempo tempo. Gente assim pode-se abraçar sem medo de que alguma coisa estoure. Ou silicone não estoura? .

Naquele entardecer, Penélope deixou o regador, se aproximou da rede de Ulisses, balançou-a, fez-lhe um afago, perguntou: “Querido, você gosta de ossobuco, né?” Tremi. E uma onda de sensualidade me invadiu, atingindo-me o estômago, alimentando-me, ao mesmo tempos, os mais primitivos e os mais refinados apetites. Esqueci Samarkand, o barroco árabe, viajei em salões de Paris, nos refinamentos de Florença, também na gula pantagruélica de Milão: “Ossobuco, ossobuco…” – gemi. Por que falar em manjares?

Entusiasmado, levantei-me da rede, comecei a andar pelo jardim: “Ossobuco, ossobuco…” Segurei os ombros do anjo caído dos céus, de meu poço sem fundo, acabou-se o mundo e comecei a contar, fascinado, delirante: “Não me fale de ossobuco, meu coração lateja de saudade de Thiago de Mello, o poeta de nossos amores. Pelo ossobuco de Thiago, engulo cobras e lagartos.” Entrei em transe.

Sabe, aqueles profetas no alto da montanha, discursando? Era eu próprio. E contei e discursei e revelei: Thiago me ofereceu um ossobuco feito com as próprias mãos, as mesmas que cozinharam para Pablo Neruda no Chile, para Picasso, em Paris. Foi em Itatiba, numa entrevista para o Correio Popular. Thiago de Mello parecia um santo, todo vestido de branco, os cabelos também brancos, a alma limpa.

Foi a mais bela entrevista que fiz na vida. Thiago transuda dignidade. Apenas ele poderia ter criado os “Estatutos do Homem”. Foram dias de longas conversas. Num deles, Thiago convidou-me, de véspera, a almoçar: “Vou lhe preparar o ossobuco que fiz para Picasso e para Neruda.” E, enquanto conversávamos, lá ia o poeta preparando o meu banquete exclusivo. Aparecida, a mulher dele, servia-nos cálices de cachacinha que pensei fosse hidromel dos deuses. O poeta cortava pedacinhos de vitela, regando-os com vinho branco, fatias adocicadas de cebolas, tomates de sua própria horta, temperos do Olimpo.

Contei tudo à minha Penélope, com todos os detalhes. E não percebi que ela se entristecera, voltando a regar flores, sem mais ouvir meu discurso epifânico sobre o ossobuco do Thiago de Mello. Então, triste, ela falou: “Não tenho mais coragem de fazer o ossobuco pra você. Chame o Thiago de Mello.”

A burrice do bicho homem é infinita. E bom dia. (Ilustração: Araken Martins.)

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