Palavrões, arte e vulgaridade

picture (5)Comecei a perceber que eu deixara de existir e que havia uma outra realidade há mais de vinte anos. Ora, quando o tempo e o mundo das pessoas acabam, elas acabam também. Já contei essa história mas, como tudo o que é traumático, as marcas ficaram e não há como deixar de repeti-la. De certa maneira, é a arte do óbvio, da mesmice, em que a Adélia Prado é mestra, a eterna repetição de Nelson Rodrigues. A vida é sempre igual. Então, aquela tarde no metrô se me tornou marcante na vida. Sentado, a multidão atropelando-se, vi a mulher entrar no vagão. Estava grávida, a barriga empinada. Levantei-me para lhe ceder meu lugar. Ela me olhou com olhar de ódio, tinha um rictus de desprezo na boca: “Você pensa que gravidez é doença?” – e recusou-se a aceitar o lugar que lhe ofereci.

Depois, foi num jantar. Restaurante famoso à época, espaço de intelectuais, de escritores, artistas. A meu lado, a bela mulher, escritora. Quando ela levou o cigarro aos lábios, tomei do meu isqueiro e fiz aparecer a chama, gesto que me pareceu cavalheiresco, gentil. A bela escritora me olhou, tirou a caixa de fósforo da bolsa: “Você é ainda desse tempo, de acender cigarro de mulher?” Eu era. E insisto em ainda o ser, esses gestos civilizados: de acender cigarro, de puxar a cadeira para a mulher sentar, de dar flores. E de não falar palavrões diante de mulheres, crianças, pessoas pouco conhecidas. Pois palavrões, sei todos eles. Mas não falo em público. Digo-os todos para mim mesmo, comigo mesmo e sem ninguém para me atrapalhar. Tenho até dicionários de palavrões.

Na infância de meus filhos, ao perceber que os palavrões lhes entravam no vocabulário ainda rudimentar, decidi tornar as coisas mais claras, as tais atitudes pedagógicas de pai. Em dia que pensei oportuno, sentei-me ao chão com todos eles e resolvi fazer uma sessão só de palavrões. Mostrei-lhes que eu conhecia todos, absolutamente todos os palavrões. Falamos e falamos até que eles se cansaram. E entenderam que não deveriam dizê-los em público.

Doutra feita, foi com pequenas grosserias. Uma das meninas, discutindo com o irmão, falou: “não encha o saco.” Estávamos à mesa. Expliquei que, se a palavra se popularizara, não era polido uma menina dizê-la. Minha filha até entendeu, concordou. Alguns dias depois, porém, ela me cobrou: “Pai, minha professora falou, na classe, que todos nós somos um saco. E agora?”

Essas coisas, volto a pensar nelas nem mesmo eu sei mais porquê. Pois palavrões se tornaram tão corriqueiros que são marca registrada da vulgaridade de nossos tempos. Desconfio que o belo e o civilizado se tornam privilégios de tão poucas pessoas que, por elite, entenderemos um grupo de pessoas que cultuem as boas maneiras, não importa a que nível social ou econômico pertençam. Os palavrões estão em quase todos os programas de televisão, em rádio, em filmes, até na imprensa antes zelosa do uso da linguagem.

E nas escolas? Crianças e adolescentes falam palavrões como se estivessem em quintais de suas casas. Falam e gostam de ouvir. E há adultos que se divertem com isso, da mesma forma como há os que se divertem com vulgaridades. Certa vez, em Campinas, fazendo palestra a adolescentes, uma bela mocinha quis saber dos palavrões de que eu mais gostava. Respondi-lhe que, se eu lhes dissesse, ela poderia se sentir ofendida. A mocinha desafiou-me: “Pode falar que eu não estresso.” E soltei-lhe, sonoramente, os meus palavrões: “Você é uma bissetriz, filha de uma grande hipotenusa.”

A garota se ofendeu. E bom dia.

Deixe um comentário