Para quem os candidatos falam?

whata

Há, no país, um formidável contingente de eleitores analfabetos, aos quais foi concedido o direito ao voto. Como sempre, políticos brasileiros divertem-se em cuidar dos efeitos sem se dedicarem às causas. Ora, por que não alfabetizar primeiro, extinguir o analfabetismo e, então, torná-los cidadãos mais conscientes para decidir e escolher? A resposta é simples: é mais fácil e propício alimentar o analfabetismo do que cuidar da promoção humana.

Jamais entenderei que analfabetos – incluindo-se os analfabetos funcionais, que são cada vez em maior número – tenham discernimento para, pelo menos, entender os grandes problemas nacionais e internacionais, de importância crescentemente crucial. Admito que o voto de analfabetos seja admissível em eleições municipais, quando e onde os problemas do cotidiano são sentidos por todos e não precisam de grandes elucubrações para ser entendidos. No município, os analfabetos têm, até mesmo, maior capacidade de discernimento em relação ao dia a dia. Mas não se pode exigir, deles, compreensão e entendimento do grande jogo político internacional. Neste, inevitavelmente, o voto será dado por influência de chefetes, de pastores, de currais eleitorais modernos.

Decidi não ver programas eleitorais, debates entre candidatos. Uma questão, para mim, de ordem terapêutica. Pois o nível político está tão baixo, tão ridículo que a Lei Eleitoral deveria obrigar uma observação antes do início deles: “Este programa faz mal à saúde”. No entanto, por dever de ofício, vejo-me obrigado a de, quando em quando, observar alguma coisa. E, nesses momentos, deixo, à mão, meus comprimidos de Lanzoprazol (para estômago) e Atenolol  (para pressão arterial.) É um acinte, uma pantomima, desfaçatez. Os marqueteiros não estão conseguindo, sequer, embrulhar os candidatos com papel especial, caprichando na embalagem para disfarçar o conteúdo. Há indícios de um profissionalismo envergonhado.

A quem se dirigem os candidatos? Quem, do povo, entende das embromações a respeito de macroeconomia? Dos tantos milhões de eleitores mal informados, quantos entendem de PIB, de Bolsa de Valores; quantos sabem diferenciar investidores de especuladores; por que tudo está sendo apresentado com pessimismo, horrores e ódios – se o desemprego não tem sido problema, se o brasileiro invade os shoppings de outros países, se viagens ao exterior batem recordes? O povo compreende o que é a taxa Selic? O que é “spread” bancário? Por que a indústria automobilística tanto reclama, se já vendeu mais do que era imaginado nos últimos meses? Ou o povo deve comprar os imensos carrões – completamente desapropriados ao mundo que luta contra desperdícios – apenas para amenizar o mau humor das montadoras? O mercado deve servir ao povo ou o povo tem que ser submisso servo do mercado?

As eleições brasileiras continuam sendo um instrumento secundário na nossa impostura democrática.  O povo não é chamado a participar, mas a legitimarr, a coonestar. Os partidos – nos bastidores e conforme os interesses – decidem tudo e submetem à aprovação popular, usando, porém, de todos os recursos para manipulá-la. Ou não é o que fazem líderes evangélicos que, em nome de Deus, exigem que o pacífico rebanho de fiéis vote em candidatos abençoados pela Providência Divina, os eleitos de Deus. Igrejas e seitas estão estimulando a população a querer votar nas assembléias religiosas para também eleger pastores alheios à sua crença.  Quem quer sacralizar o profano, será honesto se permitir a profanização do sagrado.

Os candidatos falam entre si, para si mesmos, para grupos de cúpulas de poder. O povo está à margem deles. E, ainda outra vez, iremos às urnas para escolher não o ideal, mas o menos medíocre. Não se trata – volto a insistir – de escolher entre o mal maior e o mal menor. Isso é falácia, pois mal é mal. E o que temos de observar é qual dos males causa o dano maior ou o dano menor. Está óbvio que estamos diante de um único cenário: a favor e contra Dilma. Aécio e Marina não têm propostas, a não ser a de derrotar Dilma. E os eleitores estão se organizando no mesmo diapasão: a favor ou contra Dilma. Não nos enganemos: este é o fulcro da atual eleição.

Aceitemos, porém, que a união das forças de oposição seja apenas para derrotar Dilma. Nessa hipótese, a avaliação de Aécio e Marina deve ser mais severa. Qual deles – na tentativa de derrotar Dilma – causará dano maior ou dano menor ao país? Como guerreiro contra Dilma, não há negar que Aécio seja o mais qualificado. A onda emocional e até divertida – como num jogo de apostas – a favor de Marina não leva em conta o que poderia vir a ser um seu governo. Marina não governará, não sejamos tolos. Ficará nas mãos de pastores, de caciques políticos, de grupos econômicos, sem condições de montar ministérios autênticos, de reorganizar toda a estrutura governamental do país. Se é, apenas, para ser contra, Marina é um docinho de coco para sobremesa. Se é para levar a sério o jogo “contra”, Aécio – mesmo com menor densidade eleitoral – terá mais recursos. Será PT contra PSDB novamente. A visão de Lula/Dilma confrontada pela de FHC/Serra. Marina é um acidente de percurso. Que poderá se transformar em tragédia.

Até agora, porém, eles falam apenas de si para si mesmos. Besteirol. E bom dia.

Deixe um comentário