Paraíso perdido

Este texto foi publicado originalmente em setembro de 1988 no semanário impresso A Província. Recuperamos para lembrar os 30 anos de atuação em Piracicaba.

É preciso ter e alimentar fantasias, caso contrário o enlouquecimento é inevitável. As pessoas que se dizem realistas e práticas acabam sendo as que mais se aproximam da loucura. Elas têm medo de sonhar, como se o sonho fosse uma fraqueza, e nada fazem além daquilo que a razão lhes determina.

Confesso que pouca coisa tenho encontrado mais cheio de tolices do que esse apego à razão, que exclui o gozo de emoções, que invalida esse bem fundamental do ser humano que é a intuição. As pessoas se tornam racionalistas em excesso, como se a razão fosse um deus supremo.

Racionam conforme a informação que têm e hoje todos estão raciocinando da mesma maneira, programados para as mesmas respostas e a mesma maneira de agir, para os mesmos objetivos e as mesmas buscas.

Não há mais espaço para a fantasia, para o sonho, para a esperança. Daí essa loucura coletiva, a frenética busca de algum sentido para a vida – quando a vida não precisa ter qualquer sentido. Ela é seu próprio sentido.

E não há outra maneira de se conviver saudavelmente com tantos loucos robotizados a não ser se tornando louco à maneira inversa deles: alimentar fantasias, enquanto eles abastecem os seus cérebros computadorizados com mais informações lucrativas e produtivas.

Somente um doente consegue viver sem o sonho. E a fantasia é parte do sonho. Ora, lá estou eu acalentando um pequenino sonho: plantar um jardim com minhas próprias mãos: morar num jardim, onde o mundo dos homens racionais entre apenas quando eu permitir.

Não fomos nós, humanos, que perdemos o Éden? Pois lá me vou querendo recuperar o paraíso perdido, nem que seja um pequenino jardim: de flores, de plantas, de frutos, de pássaros, de água cristalina, de silêncios profundos, onde o som da minha máquina de escrever não destoe do som dos arredores.

É um pequenino sonho, passo necessário para sonhos maiores, minha ânsia de escrever aquilo que não escrevi. E esse sonho me permite algumas fantasias que vou, no meu cotidiano, repartindo com o velho amigo que me ajuda com seu conhecimento de flores – pois sou aprendiz de jardineiro.

O velho me falou, com a terra esturricada: “Se não chover, tudo isso irá morrer”. Bati-lhe no ombro. “Deixe pra mim, vou  conversar com Deus, ele vai dar um jeito de fazer chover”. O velho me olhou, mas percebi que havia apenas ceticismo em seus olhos, ao invés de desaprovação ou medo de um louco.

Expliquei-lhe, no diálogo da fantasia. “Ele vai atender sim. É do interesse dele. Afinal de contas, se estamos construindo um jardim, se queremos que a terra fique bonita, ele tem que dar uma ajuda, não é verdade?”. Dois dias depois, contrariando a meteorologia, choveu.

E o verde das plantas ficou deslumbrante, as flores sorriram, gargalhavam de alegria. Encontrei meu velho amigo plantando bauinas. Então, ele me falou: “Eu também conversei com Deus e ele me disse que você já tinha falado com ele. Prometeu que daria um jeito. E deu”. E voltamos a plantar. Bom dia.

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