Passado, presente e futuro

PassadoConheci, certa vez, uma jovem de apenas 25 anos que ficou viúva antes de ter chegado aos 20. Era uma moça triste. Ela me deu algumas folhas de um diário que escrevia. Numa delas, estava escrito assim: “a experiência da vida leva à covardia de viver”. A dor emudece. E o Riobaldo, do velho Guimarães Rosa, já dizia: “viver é muito perigoso”.

Logo, diante de tanto perigo, não há como não se acovardar. Essa seria uma conclusão. Mas não concordo com ela, da mesma forma como não concordo com a fragilidade daquela moça, jovem viúva aos 25 anos. A dor amadurece, sim. Mas justamente por amadurecer, tem que levar as pessoas a olhar a vida com humildade. A vida é um momento, nada mais do que isso. E ela se perde a partir do instante em que o passado e o futuro passam a ter importância vital. O passado é o que se foi. E o que se foi se foi. Serve como lembranças ou como experiência, para nada mais serve. E o futuro é o que está por vir. Para que serve o que está por vir, se nem mesmo pode vir?

O passado, que se foi, e o instante que se vive, essas são as únicas realidades. O futuro é uma hipótese, o instante seguinte é apenas uma probabilidade. Viver é muito perigoso, talvez, por causa de não ser possível impedir a morte.

E o problema, possivelmente, esteja na questão da morte. Ao invés de ser um fim natural – como a folha da árvore, que seca e morre; como a da flor, que resplandece e morre – a morte humana é feita de mistérios, de temores e de inconformações. Acho que é uma questão religiosa, de todas as religiões. Pois, em cada religião, há um deus e o homem é filho dele. Portanto, parte da divindade, participante do infinito. As religiões, todas elas, dizem que o homem vem de um deus e a ele retoma. Daí, a nostalgia da imortalidade. Assim, a morte se torna maior do que a vida. Esta é um episódio, a morte um resultado, prêmio ou castigo. Explica-se, pois, a convicção do Riobaldo, de que “viver é perigoso”. E a conformação da jovem viúva, de que “a experiência da vida leva à covardia de viver.” Pensando nisso, fico com inveja dos ateus. E me encanto com Jung: “a vida é uma floração. “É mais bonito e agradável viver como flor.

*Publicada originalmente na Tribuna Piracicabana em 14/03/93

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